terça-feira, abril 10, 2007
Devoção Universal
Ela tinha gosto de mortadela quando o beijou. E ele não conseguia identificar se o cheiro era do embutido antigo do Império Romano ou do estômago dela.
Ficou pensando alguns segundos enquanto passava a língua entre os dentes da doce mulher, procurando alguma pista de presunto. Achou um pedacinho de massa, vindo de alguma amigdalite passada.
Pigarreou. Ela sorriu docemente, revelando um piercing de diamante falso. Ele tinha tara por arcada dentária perfeita. A doce Ana Clara, por homens esqueléticos. Nerds nunca. Geeks.
Ele a beijou novamente. O cheiro da gordura voltou à sua boca. As línguas se acasalaram como duas focas gordas. Ele babou. Ela achou o fim, mas deu uma segunda chance. Ele sentiu náuseas quando o cheiro inundou sua bochecha, remetendo-lhe à padaria da esquina, com seu pão recheado de baratas cascudas.
O gosto de pão com mortadela, sem miolo. Sua língua congelou com um bafo quente. Ana Clara, doce e confusa, não entendia muito bem o ocorrido. Ele, engasgado, só lembrava dos diversos tipos de mortadela. Frango, porco, defumada, peru, da Mônica.
Na barra de sua Ana doce Clara, um golfo com o piercing falso, em pedaços. Em meio ao cheiro embutido, a lembrança de que Sophia Loren fora a madrinha do produto.
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