quinta-feira, julho 24, 2008

Os morimbundos

Ela passou a mão na madeira 40 vezes. Arrumou a mesa e separou as peças pretas e brancas. Girou-as pelos dedos sete vezes e o mundo movimentou-se em pontinhos. Ninguém percebeu quando das linhas da mão sombras brotaram e bolhas de ar contornaram o dominó. Distante dali, em um caminho que ia para baixo de uma ponte, Cristiania fervia com quartos de suruba. Fazia tempo que ela não via o sorriso do sol caminhando por entre os corpos que jogavam gamão. Corpos são tamanhos em erupção, ela dizia. Fervilham, explodem e adormecem. Pingam e derretem. Com as mãos fervilhadas, partiu a madeira e do centro retirou uma máscara. Levitou-a e após fazê-la rodopiar, retirou toda a roupa, arrancou fio por fio e separou sete peças de dominó. O primeiro jogador chegava pela esquerda. Quando ele sentou, ela comeu sua cabeça, pois ele tinha uma pinta na parte do cotovelo esquerdo. Retirou uma peça da mesa. A fila indiana de corpos subia a perder de vista. O dominó, trêmulo, só tinha 48 peças.



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domingo, julho 06, 2008

Elefantes felpudos

B. havia preparado sobre a cama elefantes de toalha. Arrumados meticulosamente sobre a colcha de 200 fios de algodão. Arrumados em fila indiana, como passageiros suecos ou palitos de dentes em restaurante a céu aberto. Decidiu classificá-los como elefantes-asiáticos, já que suas orelhas eram bem menores que as dos africanos. Curiosamente, ao terminar sua última escultura, ouviu duas vezes a batida na parede.

1.2. Entortou um pouco a cabeça. 1.2. Deu um sorrisinho de leve. 1.2. Pulou da cama. Os elefantes de toalha quase se mexeram. Botou seu órgão que detectava ondas sonoras rente à parede gelada do quarto amarelado. Um conjunto de ukeleles se harmonizou? Pode ouvir um sino, zunidos de metrô. Ajeitou sua orelha para entender melhor. Era uma língua estrangeira? Qualquer música que lembrava orquestra. Qualquer música que lembrava os Bálcãs? Estremeceu. E se fossem terroristas? E se essa música fosse contagem para bombas? Voltou à cama. Ajeitou a tromba do elefante do meio. A eterna instabilidade do colchão.

Enquanto o som invadiu o quarto e B. se escondeu debaixo de seus mamíferos felpudos de toalha, imaginando todas as cenas de atrocidades orientais que tinha visto de manhã pela sua TV digital, misturadas com lembranças de cosquinhas, a vizinha do lado, de joelhos, em sua anatomia notável, batucava com as unhas a lateral do vaso enquanto cantarolava e folheava um gibi da turma da Mônica, infectado.



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