sábado, setembro 29, 2007

século XXI

Ela se achava tão merda que quando pulou da Ponte Rio-Niterói percebeu que as fezes abriam caminho para sua passagem pelo esgoto marítimo do século XXI.



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quinta-feira, setembro 27, 2007

Pulo do gato

Pichano tinha o pêlo negro que nem graxa líquida. Brilhava entre as 2 listras brancas, simetricamente alinhadas.

Franca acordou sobressalta, pois tivera um sono agitado. Pichano caminhava piscando o olho esquerdo. Era seu cacoete preferido.

Ela tivera a impressão de ver o gato movimentar a boca, mas perdeu o pensamento ao ver como o rabo zebra dele dançava suavemente conforme o funk alto do bar abaixo de seu prédio.

Será que se prendesse um pregador no rabo do felino ele enlouqueceria e perderia o equilíbrio? A malícia subiu-lhe as idéias. Tipicamente humana, ela foi até a lavanderia e pegou o objeto branco, de plástico. Madeira ia ser maldade demais.

O felino passou rapidamente pela porta central do apartamento, parecendo adivinhar o que lhe aconteceria.

Franca notou que a chave não estava na porta. Quem teria saído? Quem teria entrado? Sua mão alcançou a maçaneta.

Trancada.

O felino parecia ter soltado um grunhido malicioso.

Franca apertou e desapertou o pregador. Sentou-se suando e começou a esfregar o objeto branco entre os dedos. Paredes ziguezaguearam. Ela precisava se concentrar no pregador. A pressão do concreto chegava à sua respiração em folgadas inspirações de ar.

Inspirar, expirar, apertar o pregador, desapertar.

O oxigênio a sufocava, uma cólica invadia-lhe o umbigo.

Inspirar, expirar, apertar o pregador, desapertar.

As paredes pipocavam que nem comercial de guaraná.

O cacoete de Pichano parecia bolinha de pinball, sempre distante.

Mas lá longe, ela viu um brilhinho. A janela abriu-se e ela teve forças para entortar a cabeça e ver o pulo do gato.
Ele estava puxando os bigodes sim!

Franca concentrou-se no objeto branco. Apertar, desapertar, apertar, desapertar.

Caminhou até a janela.

Pulou.

Pulou 3 vezes pedindo ajuda a São Longuinho.

Pichano voltou para o interior do apartamento com o cacoete no olho direito e ajeitou-se no sofá. Franca acompanhou o movimento e encontrou a chave largada ao pé do móvel.

Jogou o objeto branco no chão, ao ritmo da batida do funk carioca. Abriu a porta. O ar entrou como que peneirado. Ela sentou-se exausta no sofá. Fez um carinho no Pichano e o gato respondeu lambendo seus próprios bigodinhos.



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quinta-feira, setembro 13, 2007

Farinha + açúcar + leite

Nilza Soares fazia bolinhos de chuva. A catédrica pessoa gostava de ir para cozinha, untar a frigideira com óleo Carrefour e passá-los no açúcar com canela sempre ao meio-dia.

No meio do dia, ela observava pela persiana de seu apartamento classe média baixa o movimento dos almoços dos outros apartamentos. Cheiro de quentinhas, batatas-fritas, peixe cozido, bobó de camarão. Nilza reconhecia cada sabor pelo cheiro.

Todos eles cheiravam a uma falsa democracia. Todos eles cheiravam a um falso governo representativo. Todos eles tinham estabelecido almoçar perto da televisão.

Nilza Soares se perguntava o que aconteceria com a nação se ela ficasse privada de poder intelectual. Seus vizinhos não eram selvagens, não mesmo. Eram escravos. 1 hora, no máximo 1 hora e meia para comer carboidratos, proteínas e vitamina B12. Meia hora, no máximo 15 minutos para limpeza bucal, pratal e manual.

Comunismo, socialismo, lulismo.
Os interesses coletivos do povo.
As farturas na mesa dos cidadãos.

Nilza Soares comia bolinhos de chuva passados no açúcar com canela ao meio-dia. Ela queria afastar ou ignorar seu pensamento, mas não conseguia. Ela era déspota, não havia dúvida. Havia aprendido naturalmente a oratória, era representante de uma cidade emergente cujo lema era melhoramento e ordem. Ela sabia controlar simpatias gerais.

No auge de seus 20 anos de carreira e de suas falsas ideologias, ela sempre comia bolinhos de chuva. Via espíritos experientes e exercitados almoçando arroz com purê de inhame. Via criancinhas lambuzando os dentes com cascas de feijão. Nilza não, seu sangue era feito de canela.

Nilza Soares observava seu último bolinho de chuva, encharcado de óleo sobre o papel toalha azul. Observou atentamente farinha, açúcar e leite se desmancharem com o calor da cozinha. A representante amassou o bolinho com os dedos políticos, empregados há anos com ponderação. Sobre a pele somente a gordura, o grudar do açúcar nas membranas.

Depois tirou os sapatos, deitou no sofá e ligou a televisão. Somente lambeu os dedos.



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domingo, setembro 09, 2007

O último Faniboni

Ramon Faniboni leu em um outdoor estratégico: “Use a alma pelo lado de fora *CONVERSE”. Até a marca de seu tênis dava-lhe sinais.

O menino de 19 anos logo se transformaria em homem, quando os feitiços da cidade metropolitana caíssem em seu rosto, transformando as rugas de expressão em preocupação.

Mas só por hoje, ele queria ter a alma pelo lado de fora. Fazer cair cada moedinha de pele, tirar todos os fiapos de pensamentos, sacudir a toalha mental e deixar ao sol o descendente Faniboni.

Em troca, São Pedro mandou uma chuva de primavera. As gotas limparam as janelas do ônibus e ele viu a lagoa. Imunda, fétida, viva, humana.

Era a beleza assimétrica.

Ramon Faniboni queria liberdade, mas só ganhou solidão. E enquanto o ônibus atravessava a avenida e a lagoa cuspia lesmas, ele deixou-se levar pelas circunstâncias. Deixou-se ir até o ponto final, descer e ver que a tolerância acrítica parecia cópia de mangá brasileiro.

O cheiro podre ainda subia-lhe as narinas. Ramon Faniboni gritou bem alto. O ônibus já tinha saído. Ele gritou mais alto, jogado no paralelepípedo. Viu a batata de sua perna se desprender de seu corpo. Sentiu-se culpado, esvaziado, com a alma usada pelo lado de dentro, um pedaço de mediocridade.

Ao longe, um pitbull levava a sua batata para a lagoa suja.



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