quinta-feira, agosto 31, 2006

Hering

Erika cruzou a rua despreocupadamente. Seus pensamentos estavam na cartomante que acabara de consultar.

# Você tem certeza de que quer conhecer seu amor? ela disse.

# Sim, Erika respondeu.

# Está escrito, querida. Será a última coisa que verá nessa vida.

Não acreditava em destino. Não lia horóscopo. Detestava Paulo Coelho e ria toda vez que alguém lia sua mão. Mas não evitou quando a cartomante se aproximou e puxou conversa.

# Não tenho dinheiro, moça.

# Eu só preciso falar, menina. Não quero nada precioso seu.

# 2 minutos. Quem é o grande amor de minha vida? perguntou quase gargalhando.

A cartomante contorceu seu rosto.

# Não acredito que dei ouvidos para essa...

Enquanto atravessava a rua, Natalie Imbruglia cantou na rádio da cidade. Erika ouviu perfeitamente os freios da picape em seu corpo e o estalo de seus ossos. Em um segundo, ela estava no chão. Algo quente a aquecia. Uma mulher saiu desesperada de dentro do carro. Essa coisa quente que a acalmava também estava lhe sufocando.

# Ela precisava de uma ambulância!

# Ela surgiu do nada!

Involuntariamente queria falar. Viu o vulto na multidão de curiosos. O rapaz de branco... ela conhecia. Erika sempre passava em frente a uma loja de camisas Hering e ficava horas hipnotizada pela visão do local.

O rapaz estava de camisa Hering branca e jeans, como o boneco que a atraia na vitrine.

Ela o conhecia!

Mas estava sufocando. Algo quente não estava deixando Erika falar. Levantou o braço e apontou para o rapaz. Parecia que ele esperava o sinal. Se aproximou chorando. Nem ele sabia porque as lágrimas teimavam em descer. O rapaz ajoelhou-se:

# Olá, pote de luz.

A mão em seu rosto a fez lembrar. Caminharam juntos, sorriram juntos, cantaram juntos, comeram frutas juntos, dormiram juntos, nadaram juntos, se abraçaram e se beijaram.

A poça de sangue estava aumentando em volta de seu corpo. O rapaz estava em prantos agora. Erika o puxou para perto de sua boca.

Sussurrou claramente:

# Eu ainda te amo.

Os paramédicos chegaram meia-hora depois. O sangue já havia atingido seus olhos. Tentaram revivê-la, mas a última imagem nebulosa que teve foi a marca Hering do menino de branco.



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quarta-feira, agosto 30, 2006

Telefone sem fio

Cacau pegou sorrateiramente da cozinha de sua mãe duas latas grandes de extrato de tomate. Encheu-as de água no banheiro. O conteúdo vermelho descia ralo abaixo enquanto que ela dava um furo nas latas.

Andrey esperava do lado de fora. Cacau nem fechara a torneira direito e já estava pulando a janela da sala ao invés de passar pela porta. Andrey esperava com o barbante na mão.

# Vamos, rápido, Cacau! Vamos perder o sinal!

Andrey e Cacau correram pela ladeira abaixo. Cruzaram as ruas do Vidigal, nem prestando atenção à paisagem espetacular das praias abaixo. Desviaram de motoboys. Passaram disparados pelo Nós do Morro.

# Você ainda está vendo, Andrey?

# Sim. Cruzou a esquina. Mais rápido.

As ruas sempre estavam vazias às duas da tarde.

# Parou.

Andrey olhou para o céu boquiaberto. Cacau fez nós entre as latas e o barbante.

# Andrey!

# Você viu?

# Estica.

O menino obedeceu. Acima de suas cabeças um objeto ovular violeta fosforescente.

# Quanto tempo ele ficará dessa vez?

# Não sei.

Andrey foi para uma esquina e Cacau para outra. Esticaram o fio de seus telefones de lata.

# Tá me ouvindo, Andrey?

# Claro e perfeitamente. Conte a história, Cacau.

# Ok. Era uma vez uma vaca amarela.

Um barulho foi ouvido entre os dois. Ressonando por entre o barbante, ondas sonoras de comunicação.

# Uau, Andrey.

# Eles acham que...

Andrey lembrou de ET quando passava no fim de ano na sessão da tarde. De Contatos Imediatos de Terceiro Grau, de...

# Aí ela deu um peido e...

# Não! Espere, Cacau.

A menina levou um susto com o grito do amigo. Vinham fazendo isso há semanas, era assim sempre.

# O que foi, Andrey?

# E se tentássemos...

# Andrey...

Andrey insistiu.

# Por favor.

# Tá, só um pouquinho.

Andrey respirou fundo.

# Olá, estranho. Aqui é da Terra. Nós gostaríamos de saber...

Uma estrondosa gargalhada surgiu do meio do barbante, atingindo os ouvidos de Andrey e Cacau. Eles soltaram as latas e tamparam os ouvidos. O objeto no céu alaranjou-se. Encheu de branquidão a visão dos dois. Tamparam os rostos, se abaixando. Em um feixe de luz, sumiu.

Cacau levantou possessa.

# Eu te disse!

# Ah! Eu só queria perguntar se o esquema da cola que eu fiz para matemática ia dar certo.




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terça-feira, agosto 29, 2006

Uma pedra mascava, por favor

# O que aconteceria se a chuva fosse doce? perguntou Hugo.

# Haveria mais diabéticos, respondeu Luciana. Os cabelos ficariam ensebados, mas as empresas de dietéticos lucrariam.

# Com certeza os camelôs tirariam proveito de alguma forma: Na minha mão, uma chuva com gosto de torresmo!

# Mas ela seria doce.

# Sim, mas ambulantes sempre arrumam um jeito de burlar o tradicional.

# Mas a água já é doce, Hugo.

# Você não estudou, é? A água é incolor, insípida e inodora.

# Para mim, ela é doce.

# Estou falando de uma concentração maior de glicerídeos!

# E os vegetarianos? Seria um açúcar em flocos? Fino? Em pedras? A União ia falir.

# É, qualquer um. Qualquer um poderia pedir “Uma pedra mascava, por favor”. Seria revolucionário.

# Os impostos subiriam. Taxas em cima da chuva que caísse em cima de seu telhado.

# Ok, me convenceu. Pega a sombrinha e vamos enfrentar essa chuva de ventos até a casa de sua mãe, querida.



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segunda-feira, agosto 28, 2006

A casa da árvore

Os pés foram sujos de lama. As unhas logo foram contaminadas por vermes invisíveis que só atingiam indivíduos ricos. Gil estava protegido, porém. O sítio de seu avô era um reservatório de plantas realizando fotossíntese. O ar era mais leve e úmido. Os seres respeitavam a grama. Não atingiam a superfície urbana.

Era uma tarde de primavera. Gil tinha acabado de comer bolo de fubá com chocolate quente. As folhas caíam e atingiam o chão de hora em hora. A flor abria seu néctar para uma exploração selvagem. Gil decidiu explorar o terreno até então conhecido. Colocou no bolso um sinalizador, uma torrada e um Lolo, caso sentisse fome. Chocolate repõe energia, era o que sempre sua avó dizia.

Pegou a estrada que partia do portão da casa de seu avô. Era um dia claro, mas quando ele ultrapassou a cerca de madeira, uma nuvem cinza pairou.

Caminhou quilômetros cantando antigas canções de escoteiros, transmitidas oralmente pelo seu pai. Quando ia repetir pela décima quinta vez a primeira música, intrigou-se. No caminho antigo que sempre conhecia havia somente uma estrada de flores. Piscou os olhos novamente. Sim. Ao invés do caminho conhecido, uma bifurcação. Um era o caminho das margaridas, o outro de rosas brancas. Como rosas brancas lembravam enterros, escolheu as margaridas.

A cada passo dado, um barulho diferente. Até pensou em voltar, mas o caminho das rosas era mais assustador. Seguiu. Ouviu passos pela estrada, mas cada vez que olhava para trás só encontrava suas pegadas. Ouviu Ágoras, o animal da família, fazer barulho ao longe.

Bem, não estou longe então. Qualquer coisa eu grito.

Mas não gritou. À sua frente, um menino de pés virados o observava. Gil empalideceu. Os olhos dele eram negros como noite sem lua. Virou para trás pronto para correr, mas o menino estava à sua frente, assim que virou as costas.

# Você não precisa de sinalizador, disse o menino de pés virados.

Ele futucou seus bolsos. Jogou fora seu objeto preferido, esfarelou a torrada, mas guardou o Lolo em sua mão empoeirada. Suas unhas eram grandes. Arranhou Gil quando segurou se braço.

# É por ali.

Seria ele um Curupira? Um deficiente? Um estrangeiro?

O menino de pés virados conduziu Gil para o fim do caminho, que dava para um pé de roseiras com espinhos.

Odeio rosas.

Como se os espinhos não o atingissem, o menino dos pés virados segurou os ramos da roseira, até que Gil passou. Quando Gil virou-se, só a roseira estava ali.

Mas no meio do campo aberto, onde nuvens se formavam carregadas no céu, ele viu a casa da árvore.

Era feita de ramos, de galhos, de madeira e de panos. A porta estava encostada. Gil olhou para roseira e para a casa. Sinal de Ágoras ao longe. Encheu o peito de coragem e gritou:

# Olá! Alguém aí?

Nem o vento respondeu.

Vou chamar mais uma vez, só isso.

# Olá! Alguém aí?

Ouviu um ruído em suas costas. Um cheiro de perigo no ar. Um animal gigantesco o observava, perplexo. Sua boca pingava água, era algo asqueroso. O animal soltara um ruído que Gil não conseguia identificar. Apavorado e tremendo, Gil correu e subiu as enormes escadas, eufórico. Chegou no topo da casa, suando e assustado. Não viu quando o encapuzaram, mas sentiu quando o jogaram no chão de madeira.

# Uau! Olhem isso!

# Ele é menino ou menina?

Gil pode ver a luz e identificou os seres quando o capuz fora retirado. O animal asqueroso estava lá, latindo.

# Será que ele morde, João?

# Claro que não.

Gil se encolheu. Sabia das histórias desses seres, principalmente dos pequenos que torturaram gerações de seus familiares.

# Ei, seu gnomo. Até que enfim o pegamos, hein?

Gil não entendeu as palavras. Seus cachos ruivos caíram sob sua face. Estava perdendo as forças. Precisava de seu Lolo.

# Será que ele vai querer morar aqui, João?

# Claro. Quem é que não gosta de uma casa na árvore? Vamos colocá-lo dentro desse pote grande.

Não. Os potes de vidro não. Pensou em sua mãe. Em seu Ágoras. Implorou para o ser urbano maior o libertar, mas eles eram cruéis. Principalmente os pequenos. Sempre os prendendo por gerações.

Preciso avisar a todos. Não confiar em...

Os pensamentos de Gil foram presos no pote de vidro. Seus cachos foram definhando. Se não comesse seu Lolo...

Os seres urbanos deixaram Gil sozinho. A última imagem que viu foi a porta fechando.

A casa da árvore testemunhou quando seus cachos despencaram de sua cabeça. Chovia e as crianças voltaram para casa a fim de devorarem o bolo de cenoura com cobertura de chocolate. O menino de pés virados comeu o Lolo antes mesmo de chegar na cozinha.



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domingo, agosto 27, 2006

Os cabelos da grama

Só por hoje Nina deitará na relva e alisará os cabelos da grama. Contará os passos da joaninha mais gorda, porá a mão no rosto para se proteger do sol forte. Gotas de suor descerão pelo contorno de sua perna, parando em suas canelas. O moço passará vendendo pães doces. O carteiro porá a conta de luz dentro da caixa de correio. Ela o verá assobiando enquanto separa delicadamente a correspondência e ajeita o cabelo do menino de 4 anos que recebe as cartas descalço.

Nina esticará sua toalha sob a grama e colocará a mão no queixo. Morderá uma maçã argentina, enterrará o cabinho, abrindo um buraco, sujando as unhas de terra vermelha. Reparará que a pintura de sua casa branca descasca a cada chuva torrencial, que os vidros estão sempre limpos, que o mundo tem cheiro de torta de maracujá, que as sombras sempre estão na cerca do vizinho, que as unhas crescem enquanto dormimos.

Nina pegará um velho disc-man prateado para olhar o mundo com olhos musicais. Apertará o play e ouvirá a última música de sua vida. As notas musicais entrarão em seus ouvidos, como uma mensagem de conspiração. O dedilhado e os violinos se perderão nas ondas e voarão embora, para um lugar escondido onde as memórias são guardadas e teletransportadas para uma garrafa que será jogada no espaço.

Quero que meu nome seja escolhido pela Nasa, quero que a vida extraterrestre possa ver minha alma, perdida em anos-luz, pensou.

Ela esperou por uma resposta, mas a joaninha continuava a andar lentamente, segundo após segundo. No céu, as nuvens em forma de sorrisos, em forma de Pluto, em forma do número 3 da Turma do Bairro.

Em 24 horas um tsunami atingirá o jardim. Arrancará as cercas vivas de seu muro. As lindóias de sua varanda. As violetas de seu pote amarelo.

Em dois dias o mundo descobrirá seus pensamentos enrolados em um plástico-bolha. Seu corpo será inchado de água, mas suas idéias serão captadas por satélite. Pensarão de que se trata de vida extraterrena. Gravarão suas palavras em Beta. Em 5 dias, entretanto, a esquecerão.



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sexta-feira, agosto 25, 2006

Explode-se, mas há sempre um outro dia

Daniela era uma menina bonita, educada e elegante. Mas tinha um grande problema: explodia com facilidade. No horóscopo de hoje leu: “Júpiter trigono sinaliza entendimento rápido, mas talvez incomunicável. A Lua em Virgem aponta sua necessidade de expressar suas descobertas, suas idéias, seus pressentimentos. Mas há dificuldade em fazer isso, e pode surgir o estresse, o nervosismo. Pra que? Contenha seu segredo”.

Bobagem, pensou ao fechar o jornal. Hoje estou praticamente uma faquir.

Esperou 40 minutos pelo ônibus.

Nada me perturbará.

Quando a condução chegou estava lotada porque os trens tinham feito greve até meio-dia. Conseguiu com muito sufoco chegar até o meio do veículo. Uma estudante de óculos lhe ofereceu o lugar.

Nossa. Realmente estou passando uma calmaria em meu semblante.

Tinha programado ler Jane Austen na viagem. Orgulho e Preconceito.

A estudante, com seu boné Von Dutch, continuou a sorrir para Daniela.

# Obrigada, Daniela respondeu.

# Nada, disse a menina ainda sorrindo. É para quando o bebê?

# Como?

# Você está grávida, não?

Dois meses de dieta e a pirralha me achou gorda!

Um ponto vermelho subiu em sua balança de tranqüilidade.

# Agosto.

# Então deve ser Leão ou Virgem.

# A gosto de Deus.

Daniela virou o rosto. Não ia continuar uma conversa sobre sua suposta gravidez de gordura com uma garota que segurava um caderno da novela Rebeldes.

Em uma viagem de 1 hora e 45 minutos viu pessoas subirem e descerem. Um velho magro fumou durante 15 minutos jogando a fumaça diretamente dentro da narina de Daniela.

1. Ela detestava Derby.

Uma mulher de argolas, escondendo um pintcher dentro de uma sacola de feira, pediu que Daniela segurasse o animal. O bicho passou 6 minutos tentando lamber o bico de seu seio.

2. Ela odiava babas animais.

Uma criança ficou 20 minutos beliscando seu braço enquanto sua mãe fazia cruzadinha.

3. Da última vez que tinha sorrido para uma criança foi no aniversário de 2 anos de seu sobrinho que mês que vem fará 15.

Uma evangélica ficou gritando por 23 minutos sobre o fim do mundo e a possível contaminação de Daniela, já que ela usava um pingente com o símbolo rosa do Demônio: a Hello Kitty.

4. Ela detestava os cânticos louvados dentro do ônibus puxados por essa mulher porque ela cantava em Si quando deveria cantar em Dó.

Conseguiu passar para a página 2 quando um grupo de teatro ambulante entrou pela porta da frente e usaram Daniela como experimento humano durante 30 minutos.

5. Ela agora odiava teatro porque eles tinham virado artigo burguês. Não ia dar 50 reais em uma peça só por causa de um ator global.

Os nervos tinham subido para 99,5.

Lembre-se da Índia, Daniela. Lembre-se das focas fazendo amor.

Uma mãe com um bebê esverdeado entrou esbaforida. Parou à sua frente. Nenhum homem se levantou. Não. Ela não queria levantar, mas seu senso de cidadania a perturbava.

# A senhora quer s...

O bebê esverdeado jogou um jato musgo em cima de Jane Austen. Faltavam 11 minutos para ela descer quando os 0,5% dos nervos atingiram seu cérebro. O oxigênio faltou. A mãe, sem graça, tentava limpar o musgo do livro enquanto que o bebê voltava a uma cor amarela. Os olhos de Daniela foram se esbugalhando. Sua cabeça foi aumentando.

# Moça, a senhora está bem?

Só faltavam 11 minutos para eu...

A cabeça de Daniela explodiu. O sangue chegou a atingir a nuca do motorista. Os miolos pararam na garganta do trocador. O bebê deu uma risadinha. Levaram Daniela para casa. A nova cabeça nasceu duas horas depois, com fios encaracolados de cabelo.

Droga, pensou. Amanhã terei que pegar o ônibus de novo.



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quinta-feira, agosto 24, 2006

10 histórias de amor para pessoas em cima do muro

HISTÓRIA 1:

Ela conheceu ele em um bar. Fizeram amor na primeira noite. Ela foi embora e ele se entorpeceu. Ela o encontrou dois dias depois em outro bar. Fizeram amor. Ele foi embora e ela se entorpeceu. Os dois amanheceram na boca do POVO porque não tinham pago o baseado.

HISTÓRIA 2:

Romeu e Julieta viviam em um bar temático na Irlanda do Norte. Imigrantes, fugiram de casa aos 16 anos. Ela ficou grávida e virou babá. Ele sapateiro da Rainha da Inglaterra. Hoje em dia os dois dirigem um Eco Sport e comem escargot.

HISTÓRIA 3:

Jesus e Maria se encontraram em um congresso católico. Ela era virgem e ele também. Foram abençoados pelo gozo angelical. Da união nasceu Jesus Júnior. Até hoje eles comemoram Natal.

HISTÓRIA 4:

Show de Patrick Wolf. X e Y se olham e vão logo se beijando. Paixão ardente. Mesmos gostos. Mesmas músicas. Y era um ano mais velho que X. Decidiram ir para um motel ao invés do estacionamento porque ela estava de calça vinil. Mão naquilo aquilo na mão o tempo todo. Barrados na porta do estabelecimento porque a moça estava desconfiada de suas idades, descobriram que tinham o mesmo pai quando a recepcionista pediu suas identidades. Saíram frustrados. A recepcionista ainda perguntou:
# E aí? Vão entrar mesmo?

HISTÓRIA 5:

Era uma vez uma menina que encontrou um menino e eles se beijaram debaixo de um guarda-chuva da Penélope Charmosa dentro de casa. Ela nunca se casou e ele foi parar na guerra do Líbano.

HISTÓRIA 6:

Ricardo: # Nossa, acabei de saber que minha prima é lésbica.
Eu: # Nossa! Genial...meus parabéns!
Ricardo: # Ela se matou porque meus pais contaram pros pais dela que ela tava pegando minha irmã.
Eu: # Uau.

HISTÓRIA 7:
O libertino encontrou com o espírito de Marquis de Sade em sonho. Sade deu várias dicas para o rapaz. Hoje, ele é amigo íntimo dos donos de TV e fatura uma grana preta comandando as Pussycats.

HISTÓRIA 8:
Vida era louca por Caio. Ele a esnobou durante vários anos porque ela não tinha um dente na frente. Vida o atropelou quando ele tinha 37 anos. Ele perdeu a memória e todos os dentes. Se apaixonou por ela mês seguinte e viveram felizes para sempre.

HISTÓRIA 9:

Um gato e um cachorro adotaram um pintinho que saiu a procura de um sapo que foi comido por uma ovelha que foi amada pelo fazendeiro dono do gato e do cachorro.

HISTÓRIA 10:

Um dia, João e Maria foram passear pela floresta quando encontraram uma menina de toca laranja. Os três treparam estrada afora e viraram backpackers. Inspiraram Os sonhadores, de Bernardo Bertolucci.



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quarta-feira, agosto 23, 2006

Dois cachorros e uma batata podre.

A batata estava podre. Chen abriu a gaveta de sua escrivaninha pela décima sexta vez. O cartão postal ainda estava lá. No computador de sua secretária tocava A boy like me. Uma mosca passeava pelo seu microfone. Pela janela ele viu um homem baixo tocar uma gaita de foles.

A batata está podre mesmo, pensou. Sinto o cheiro de vencido daqui. Minha barriga já está embrulhada só de pensar na acidez que trará a meu estômago.

Levou mais uma porção à sua boca.

# Esse é o jeito cosmopolita de morrer, injetando lentamente tóxicos intravenosos pela boca.

# Oi? Falou comigo, seu Chen?

# Desde quando você ouve música eletrônica, Samira?

# Tava barato nas Americanas.

# Você sabe o que eles estão falando?

# Eu? Claro que não, seu Chen.

# Eu quero dois cachorros, dois gatos, uma cozinha espaçosa e...

# Para agora ou para a próxima semana?

# Eu estava traduzindo para você.

# Ah! Não precisa.

# Você não quer saber de quê que se trata?

# Para quê?

A batata podre tinha atingido seu suco gástrico, ele sentiu quando ela afundou na imensidão verde.

Sentou novamente em frente ao computador. Abriu a gaveta de sua escrivaninha pela décima sétima vez. Pegou o cartão postal. O canto estava meio amassado.

“Paris é linda mesmo”.



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terça-feira, agosto 22, 2006

8 minutinhos

Gabriela acordou pensando: “Só mais 8 minutinhos”. Seu box preferido escolhido a dedo na Ortobom a abraçava dizendo:

# Me possua. Fique comigo mais um pouco.

Gaby obedeceu. Era bom demais. Seu travesseiro de penas de ganso a acariciou. Lá fora o dia raiava quente e límpido.

8 minutos se passaram, deu tempo para um novo sonho. Sonhou que conseguia transformar os minutos em horas. Abriu a metade de um olho, pensando: “...é isso, primeiro vou abrir um olho, depois outro. Depois durmo mais 30 segundos e abro os dois”.

Ao abrir o primeiro olho, com sua boca beijando seu travesseiro cheirando a Comfort, viu uma bola de luz violeta pairando a sua frente.

Encantou-se, abriu os dois olhos. A bola violeta partiu-se em duas. Gaby tentou não perder o foco, mas as bolas começaram a dançar e a se partir, formando mais bolas coloridas que dançavam sob seu corpo e sua cama fofa.

Queria acompanhar todas, mas a preguiça era gostosa e se contentou a continuar na mesma posição. Sorriu. As bolas ziguezaguearam. Seu cão acordou sobressalto. Tentou pegá-las. Elas fugiam de sua baba, pairando rente ao corpo de Gaby.

“Como é bom dormir. Como é bom acordar. Como é bom viver sonhando”, indagaram seus pensamentos.

O cachorro foi levantado por uma bola rosa. Ele também sorria. Girou pela metragem do quarto. Foi rodopiado pelas bolas verdes e laranjas. Planou acompanhado pela bola azul.

O mundo sorria, refrescado pela sensação de limpeza onírica.

Então... beh!beh!beh!beh!beh!beh!beh!beh!

O cão despencou do ar. Gaby pulou da cama. O despertador gritava alucinado. Seu irmão invadiu o quarto.

# Vamos! Gaby, você está atrasada! Reunião daqui a meia hora, esqueceu?

As bolas sumiram. O cão se escondeu debaixo da cama. Lá fora, o trânsito buzinava correndo atrás do tempo.

Gaby correu para o banheiro já colocando o sapato. No quarto, a cama fofa suspirou.





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segunda-feira, agosto 21, 2006

La muchacha

Clube Privé La muchacha. Show de tributo à Madonna. Kayka Sabatela no palco. Mulher até às 24h: 5 reais. Homem após 24h, 15. Mãos para cima ao som de Kelly Clarkson. Boate apertada. Corpos suados. Cabelos aromatizados com cigarros e máquina de fumaça rosa e verde.

Tatiana roubando um pôster da diva dos anos 80. Disfarçadamente sai dançando freneticamente no meio da pista, enrolando-o e colocando-o escondido no meio da calça jeans surrada. Cara com camisa encharcada se aproxima ao som de “You're so fine and you're mine. I'll be yours 'till the end of time 'cause you made me feel. Yeah, you made me feel I've nothing to hide”

CARA: # My friends don't understand. They think I've lost my mind. But I really do think you’ve got a pretty nice dancing. Am I right?

Tatiana o olha de cima pra baixo, prestando atenção nas manchas de suor localizadas na camisa branca amarelada. Em uma versão macarrônica, cospe um:

# Where are you from?

Cara animado, sotaque britânico: # Brazil.

TATIANA: # Ué? Por que você tá falando inglês comigo?

CARA: # Ué? Você não é americana?

Tatiana: # Ué? No.

Sabatela, microfone de lapela:

# Erotic, erotic, put your hands all over my body.




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sexta-feira, agosto 18, 2006

Os fins no meio dos escolhidos

O escolhido cruzou o vagão do metrô em direção a Marcello. No abrir e fechar de portas, penetrou pele adentro. Marcello começou a ver dois hemisférios distintos. O mundo material e o invólucro dos seres animados. Duas peles, 4 olhos, 10 sentidos.

Diferentes línguas foram mostradas pelos passageiros do compartimento. O vermelho intenso fez com que desejasse a flama osória. Concentrou energias para que o desejo passasse. Pensou em beijos molhados, em meninas nuas, em mulheres despidas, em música eletrônica.

Tudo era vago.
A fênix morria. O escolhido o perturbava.
Por que coisas boas têm fins?

Lembrou da primeira vez que abraçou Lívia. Do cheiro natural de seu cabelo. Da penugem clara que cobria os traços. Do batimento cardíaco encantador. Do guarda-chuva preto que os cobria. Dos músculos que se acasalavam em prol da alma invisível.

O escolhido o futucou.
A flama osória brotou na atmosfera para àqueles escolhidos que atravessam dimensões.

Há no mundo sensações únicas, pluralistas em quantidade, mas de unicidade humana. A flama osória era uma delas. Um raio colorido que saia do cérebro do escolhido, um ímã energético para aqueles que sabiam ver.

Marcello queria lembrar do desejo pela mulher que amava, mas a flama era sua vontade mais próxima de integridade.

Seguiu-a, saindo do vagão. Ela desceu as escadas. Destino: embarque linha 1.

O escolhido queria que ele corresse, mas ele não queria isso. Queria voltar e descolorir os cavalos marinhos de seu cavalete. Mas não podia. Era a flama que o enfeitiçava.

Ele só percebeu que estava longe quando os raios de sol se foram. A flama osória intoxicou seu pensamento.

Estava no Luna Park. Sentou-se em uma roda-gigante. O escolhido alisou seu cabelo. A flama pairava, flutuante à sua frente.

Ele só precisava afirmar. Brisa suave encostou-se em sua nuca, sussurrando: “Somos os escolhidos. Todas as coisas boas têm fins. Mas você pode mudas as desculpas, pode me trazer para o mundo, desde que aceite que só você verá, só você chorará sozinho”.

A flama osória à sua frente implorava um sim. O escolhido parou de piscar os olhos. Marcello gesticulou o sim.

Então a flama invadiu seus fios de cabelo, brilhando intensamente, fosforescendo seus olhos, trazendo a visão dupla para aquele que escaneava os sentimentos humanos.

Do alto do brinquedo, Marcello teve a melhor sensação, a mais solitária e a mais esperançosa.

A cidade piscava eletricidade abaixo, como se todas as coisas boas não tivessem fim.

Ele foi varrido para longe, para o alto da cabeça dos escolhidos. Evocou senhores e senhoras, almas pluralistas que procuravam a unicidade em uma totalidade efêmera.

Marcello desceu e comprou um algodão-doce.

Seu coração não batia, mas ele podia ver todas as cores do mundo.



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quinta-feira, agosto 17, 2006

A garota que banhou o gato.

Apolo eriçou seus pêlos. Cheiro de cigarro de bali. A garota o observou. Deu duas tragadas na pequena porção de tabaco seco e picado, aromatizado com canela.

Quatro quilos felinos e um estridente miado. Sua penugem branca brilhante tornou-se um marshmallow melado quando a substância líquida, incolor e insípida caiu sobre seu corpo. Muito H2O na Terra.

220 batimentos por minuto. Chiou, resmungou, ajeitou as orelhas para trás, mostrou os dentes. O cigarro de bali da garota continuava a queimar solitariamente já que uma mão estava dentro do lava-louças e a outra a segurar a pelagem do bicho.

O venerado e sagrado animal do Antigo Egito tinha um Nematódeo alongado e cilíndrico saindo de seu orifício anal dilatado. Em movimentos hediondos, o verme tentou entrar para o buraco felino, mas foi pego por uma mão direita, aromatizada com canela, e um pedaço de papel higiênico.

Em posição de quatro, com a face perto de um prato de porcelana, o gato soltou um grito quase humano. A mesma mão estilhaçou o verme impróprio para aquele corpo. A pequena cratera fechou-se rapidamente quando o endoparasita foi expelido.

O gato molhado e humilhado, mas vivo, danou-se a fugir para cima do telhado. Não olhou a rolinha que o vigiava.

A garota pegou o toco do cigarro com a mão direita e tragou profundamente. Com a esquerda, jogou o resto do papel higiênico amassado para cima da rolinha.



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quarta-feira, agosto 16, 2006

As axilas

A dor era insuportavelmente quente. Úmida, vermelha e espásmica.

Assim, a paraparésia espástica tropical, infecção viral, lentamente progressiva, da espinhal medula que causa debilidade nas pernas, derrubou Branco em um balançar de folhas. A sensibilidade de seu pé foi perdida parcialmente. Enfraquecimento e rigidez muscular em ambas as pernas.

Branco se arrastou pelas folhas quentes da amendoeira, tentando a todo custo chegar perto do carro azul. Chorou, ainda tinha um pouco de leite na boca.

As pequenas mãos rosadas e os dedos fofos batiam no chão. Era o verão de janeiro e todas as pessoas estavam distantes para ver a chegada de Tio Joaquim, aquele mesmo tio que o presenteara mês anterior com um cavalo marinho do Japão. Tio Joaquim era o orgulho da família Fonseca, o jogador de quebra-cabeças, o galanteador de outrora, o fazedor de suspiros brancos perfeitos. Branco queria mostrar seu carro azul que estava perto da árvore. A casa de Vó Maíra era grande, espaçosa e naturalmente cheia de familiares. Pessoas que cozinhavam e comiam com os olhos, pessoas preocupadas com a novela das duas, com o romance do vizinho casado, com a marca do óleo da sogra, com quantos presentes ganhariam no Natal.

Branco tinha somente os pensamentos da dor. A dor era controlada pelos impulsos de seu cérebro, jogadas no corpo porque algo estava errado. Ele ouvia ao longe as risadas dos padrinhos, sentia a fragrância do charuto do pai, o perfume azedo da irmã e ao longe, o cheiro do suor da axila de sua mãe. Branco tinha fixação por suor. Adorava o cheiro exótico e perturbador do cecê alheio. O link entre o sagrado e o profano. A marca instintiva da mortalidade humana.

As pernas pesavam. Branco sentia as abelhas acima de sua cabeça. Chorou, queria chegar perto do carro azul. Queria o cheiro do suvaco.

O limiar fisiológico de Branco tinha uma duração limitada. A dor era um feito necessário. Provava que a beleza do mundo era finita e que os impulsos dados à vida eram perfeitas sintonias de células. Se algo desse errado e a falha viesse à tona, o corpo respondia.

A dor é um estado de consciência com um tom afetivo de desagrado. Um tom excepcionalmente agitador.

Branco se debatia entre as folhas de amendoeira. Queria sentir as axilas do mundo. Queria que o corpo obedecesse. Queria sentir seu pé de novo.

Sua mãe o achou depois do segundo intervalo da Sessão da Tarde. Abelhas ainda estavam acima de sua cabeça. Em seus olhos, os resquícios da dor mortal. O bebê de 1 ano e meio foi enterrado perto da capela de São João.



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terça-feira, agosto 15, 2006

Há algo de podre no reino da Dinamarca?

Chat casual entre dois estranhos. Ônibus vazio. Mais ou menos 10 pessoas. 11 da manhã.

MULHER: Gostei de seu anel de tatoo.

Homem se afunda no banco, deixando um espaço significativo entre ele e a mulher.

MULHER: Eu sou legal, não tô te dando mole.

Silêncio de um minuto. Sorriso da mulher se desfaz e ela observa a paisagem pela janela suja de poluição.

HOMEM: Pensei que você ia realizar um seqüestro-relâmpago.

MULHER: Aqui? Você é rico por acaso?

HOMEM: Não.

MULHER: Por que que eu ia te seqüestrar então?

HOMEM: Meu cartão das Casas Bahia.

MULHER: Eu não sou consumista.

Silêncio constrangedor.

HOMEM: Eu também não pago IPTU.

MULHER: Jura?

HOMEM: Não estamos na Dinamarca.

MULHER: Humm. Você é dinamarquês?

HOMEM: Não.

MULHER: Já foi lá?

HOMEM: Não.

MULHER: Então como sabe que é melhor?

HOMEM: Como você sabe que não é?

MULHER: Pelos filmes. Você se entediaria.

Chuva de projéteis de balas na Linha Vermelha. Motorista faz curva radical. Manda todos os passageiros se deitarem no chão. Pisa no acelerador. Pessoas vão e vem pelo chão do ônibus.

Ao sair para Dutra, calmaria na estrada. O motorista diminui para 60 km.

"Ainda bem que joguei Counter Strike ontem com meu filho" é o pensamento do motorista.

Homem ajuda mulher a se levantar.

HOMEM: Ufa!

MULHER: Viu? Para que Dinamarca? É um grande paintball urbano!



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segunda-feira, agosto 14, 2006

A câmara de Heliópolis

Bruno abriu a câmara de Heliópolis. Lá dentro o ar era rarefeito. Bolas de gás, algum fanático havia feito um evento por ali. Bolas vermelhas e amarelas, perfeitos círculos. Era preciso respirar pela boca. A luz era amarela fosca e o suor descia pelos ares de seus óculos. Gotas sudoríparas encharcavam a camiseta A verdade está lá fora.

Bruno esperou uma vida e meia para achar a resposta. Teve que se tornar um serial killer de rãs para poder pegar o criador de animais que era abduzido. Teve que sair com 27 piranhas para ser contaminado por uma doença raríssima que só os escolhidos podiam se curar. Arrancou seus sisos com um dentista xamã e freqüentou templos budistas para compreender os sinais marcados no topo da cabeça dos seguidores.

A câmara era a pista mais próxima que tinha da sociedade brasileira de abduzidos desmemoriados que freqüentavam a Baixada em prol da ativação do vulcão extinto.

Nova Iguaçu era o centro de equilíbrio do mundo, segundo sua teoria. Foi por causa do município que o tratado de Kioto teve efeito no Brasil. Foi aqui que o vulcão foi achado. Foi aqui que o lixo era reciclado de forma alienígena.

Bruno teve certeza quando o prefeito foi eleito e fez o sinal Spokiano para os eleitores em um show de pagode.

Faltava achar o documento que provaria sua grande descoberta científica. Sua dissertação de mestrado seria patrocinada pelo CNPQ rapidamente. Pessoas lutariam para tê-lo em bancas examinadoras sobre a vida extraterrena. Ele seria o juiz de todos os casos. Teria o mérito de um cidadão exemplar. Conquistaria o sorriso de Glorinha.

A porta era pesada. Fechou com força atrás de si. Para chegar ao alçapão, Bruno se arrastou. Pegou um pedaço de corda e desceu. Pensou em Jerônimo, em Mulder, mas se sentiu um MaGyver. No fim da corda, um botão. Piscava aleatoriamente algumas consoantes.

Ele encostou a testa para ler mais perto. Era chinês? Árabe? Aramaico? Espanhol?

Como sempre fazia quando ia instalar um programa em seu velho Macintosh, apertou todas as vezes que uma frase nova aparecia.

Em 25 segundos o botão parou e o ar rarefeito encheu-se de oxigênio. Uma outra porta abriu e vários papéis começaram a se decompor. Uma chama flamejante atingiu uma estante de livros que estava no meio da porta.

Bruno ajeitou seus óculos, apagou o fogo com uma flanela de dois reais. Retirou todo o ferro torto e os papéis com cheiro de ácaros mortos. A porta dava para o jardim zoológico do outro lado do estado.



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domingo, agosto 13, 2006

Feliz dia dos pais para meninas sem pais

Ana Carolina estava na aula de português. Em sua carteira 24 lápis de cor. Enfileirados por ordem de tamanho. À sua frente, uma professora de cabelos longos repetia o verbo no pretérito perfeito. Ana Carolina se concentrou. As palavras eram repetidas em sua mente: “Eu corri, tu correste, ele correu...”

Focalizou o lápis metálico azul. O amarelo tremeu. Seus olhos diminuíram e o vermelho caiu da mesa.

# Todos comigo, classe: Eu parti, tu partiste, ele partiu.

Ana Carolina fechou os olhos. O cinza tremeu, mas foi o roxo que ficou em pé. Pairou em frente a seus olhos por dois milésimos, então ela abriu os olhos e ele voou em direção a menina de sua frente.

# Ai, garota!

# Me empresta sua borracha, Elaine?

# Não precisa me futucar com o lápis, Ana. É só pedir.

Ana Carolina enfileirou novamente 12 lápis. Precisava de mais concentração. Precisava de vozes em uníssono.

# Agora o pretérito mais que perfeito! Eu encontrara, tu encontraras, ele encontrara.

Ana mudou a tática e piscou várias vezes. Um, dois, três lápis tremeram.

# Vós encontrareis, eles encontraram!

Bum. A fenda abriu-se. “Eles encontraram!”, dito pela professora pairou no ar. Elaine mexendo no cabelo ficou em suspenso por um segundo.

A princípio, Ana Carolina se encolheu, de susto. Mas depois viu que o lápis branco dançava a sua frente e bem no meio da sala, uma fenda de energia. Um barulho de caixa de supermercado.

Os lápis intensificaram seus movimentos e agora faziam X e Y perante a fenda. Ana colocou seu dedo, as moléculas de seu corpo vibraram. Mesmo assim, por ser um ser humano nato da espécie, avançou. A voz de seu tio penetrou em sua lembrança: ‘A curiosidade enganou o gato e mandou uma gargalhada para os humanos’. Seus cabelos foram os primeiros a serem puxados pela força magnética da fenda. Logo em seguida suas mãos e em dois milésimos, seu corpo sumira do espaço da sala.

A voz da professora voltou para o ambiente.

# Agora todos vamos pegar os lápis de cor e desenhar um cartão para os pais. Bem, escrevam antes aí: Um pai se importa com as coisas que são importantes para a gente...

Crianças obedeciam. Canetas desvirginavam os papéis. Na carteira de Ana, os 24 lápis estavam enfileirados por ordem de tamanho, mas no meio deles, um galho de árvore e um fio de cabelo.



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sexta-feira, agosto 11, 2006

666º Tratado de Tordesilhas

Dioz,

Aceito sua proposta. Não é todo dia que se vende o mundo.

Lu


P.S. = Por que no meu Orkut só aparece Bad Bad Server?



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quinta-feira, agosto 10, 2006

Resposta à primeira carta apocalíptica

Querido Lu,

Os tempos estão difíceis, mas estou te mandando um Ring Code, aparelho compacto que será lançado em 2008, com todas as funções técnicas perfeitas envolvendo usabilidade e ergonomia. Será a morte dos laptops e a popularização entre os pobres do Ipod.

Um presente para um grande amigo.
Te entendo perfeitamente, Lu, mas cara, acho que você está se precipitando. Ainda há vantagens.
Sei que não ando supervisionando seu trabalho ultimamente, mas sabe como é, ano eleitoral fede para cachorro.
Preciso de sua parceria, amigo. Você traz o equilíbrio à Força e é por isso que o mundo se move. Nossa alegria é tê-lo como parte do time. As pessoas só são boas se passarem por situações desesperadoras. Você sabe disso. És o melhor guardião que já tive, aquele leal funcionário que leva às mãos do chefe os melhores resultados da empresa.
O ser humano é falho, eu sei.
Faz parte da composição química. Eu não deveria ter misturado compostos complexos a princípio, mas ainda há aqueles que da complexidade conseguem feitos estupendos.
Vide Bob Dylan. Ou Bill Gates. Ou Angelina Jolie.
Bem, semana que vem estarei na Cruzada da Logística Internacional. Peço que pense bem. Podemos sentar para um novo tipo de proposta.
Segue em anexo dois ingressos para o show do Gorillaz. Você é o nosso convidado especial.

Ansioso por sua resposta.
Dioz, seu amigo.

P.S. = também estou enviando para seu email um convite para o Orkut.
É Divino. :-)



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quarta-feira, agosto 09, 2006

Primeira carta apocalíptica

Eu não quero ser responsável pelo seu aprendizado
porque se você não entender, serei enfim uma falha trágica. Todo o meu esforço se reduzirá a palavras repetidas.
Quero fazer montanhismo, escrever um livro,
mentir em viagens e ter o coração duro.
Você não está aqui, contando os morangos mofados.
Nem está do outro lado da baía
para que eu possa me afogar em pensamentos.
Escrevo essa carta para dizer que partirei.
Levarei comigo o Ipod, o anel de ouro branco e
a foto da minha bisavó.
Beberei água com gás por 11 dias.
Serei tentado pelo demônio da Tasmânia,
depois descerei do monte para colher sementes de oliveiras.
Caminharei sobre a água da piscina
e transformarei o linho em lã.
Estaria no Oriente como uma cabeça de elefante,
óculos redondinhos, chagas na pele.
Serei abominado porque dei fogo ao homem,
porque apedrejei o divino,
porque roubei a sabedoria.
Meu pai me nomeou para que o homem temesse.
Fracassei.
Partirei então.
O coração humano tornou-se mesquinho.
Minha missão terminou, o mundo continua.
As divindades profetizaram o que me envergonhava.
Agora, só o plasma e o núcleo.
Partirei sozinho.
Com amor,
Lucciffer.



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terça-feira, agosto 08, 2006

O palhaço de Donald's

Melborne Francisco de Souza nasceu em 1985 e trabalha no maior abatedouro do mundo. Funcionário exemplar, foi promovido da casquinha de sorvete para supervisor de fritura.

# Mel, olha a chapa, cara!

A chapa sempre esquentava na mesma temperatura. Melborne havia se perdido em seus pensamentos. Isso sempre acontecia por volta do pico da audiência. Localizada no centro, com promoções televisionadas de 16 em 16 minutos pelo Cartoon NetWork, a loja era point dos adultos-pais, executivos magros, mas com tendências obesas que sempre aumentavam as vendas por volta do começo do mês.

# Quero um lanche feliz, com um mega ultra-submarino robô que dá golpes de Taebo e tem uma pulseira verde-água.

# Só temos laranja, senhor.

# Ai, não. E agora? Esse ele já tem!

Mel tinha um amigo de infância que o havia indicado à vaga. Vicente fazia sobrancelha. Mel nunca perguntara nada sobre a intimidade do amigo, mas ele usava lápis de olho diariamente.

Os dois fumavam no intervalo do lanche, atrás da porta dos fundos. Como os pacotes de cigarro inflacionaram nos últimos tempos, eles rachavam semanalmente o luxo do Carlton.

# Hoje vai ser o dia, cara. Muitos pais, muitas crianças.

# Quero estar longe na hora do pico, Vi.

Mel tinha um chefe, Douglas, que adorava puxar saco da unidade. Promovia, mensalmente, por conta própria, um evento que enlouquecia pais e funcionários e animava os filhos: ele guardava os brinquedos mais disputados para o mês seguinte. O brinquedo que sempre acabava primeiro em todas as lojas era sorteado por ele, vestido de palhaço e admirado por crianças de 0 a 10 anos. Todas com seus lanches felizes e seus estômagos apodrecidos de carne mal passada e litros de refrigerante quente.

Douglas, com cara esverdeada, abriu a porta dos fundos. Mel e Vicente fumavam.

# Ei, chefe, que cara é essa? retrucou Mel.

# Algo me fez mal.

# Muita gordura, disse Vicente. O senhor tem que parar de comer o número dois.

Douglas puxou o esfregão e vomitou no tanque.

# Vixe, chefe.

# Azedou tudo! Tu limpa, Mel. Credo.

# Não dá, gente. Hoje não dá.

# Chefe, vai pra casa. Cancela isso.

# Ficou doido? Crianças lá fora esperam o palhaço! O brinquedo número 1! Impossível!

# O que o senhor vai fazer? Vomitar nas criancinhas?

Douglas, que suava frio, lavou o rosto.

# Mel, só você pode me substituir.

O palhaço, no Reino Unido, como parte de seu código de ética, tem sua própria cara de palhaço pintada na casca de um ovo. Nenhum ovo pode ser parecido com o outro.

O palhaço de Donald’s, Melborne Francisco, com a máscara de Douglas, o eterno palhaço sorridente, tinha infantofobia. Era alérgico à multidões infantis. Ele foi recepcionado por todas elas, em um grito uníssono:

# PA-LHA-ÇO! PA-LHA-ÇO!

Mel foi empurrado pelo chefe. Um alvoroço infantil o atingiu. Ele ensurdeceu por segundos eternos. Pequenos e grandes puxavam sua roupa. Mulatos e brancos riam com fritas nas bocas.

“Vinde a mim as criancinhas”.

Mel viu o teto girar.

“Que engraçado. O mundo em câmera lenta”, pensou.

O cheiro de gordura e o borbulhar do liquidificador fazendo milk shake de morango foram os últimos barulhos que ele recordara. Ele só lembra de ouvir um:

# Aí vai!

O brinquedo número 1 escorregou de sua mão para o céu. O agrupamento de mãos pueris e cheias de gordura tentou pegá-lo, derrubando o palhaço, pisando em seu sorriso e em seu chapéu, comprimindo seu nariz vermelho e quebrando seu ovo.

O vencedor foi o pai mais alto que tinha o filho mais baixo. Melborne passou 22 dias no hospital. Foi indenizado. 360 reais. Era um palhaço barato.



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segunda-feira, agosto 07, 2006

O flâneur de Madureira

Era um garoto que como eu amava Baudelaire e The doors. Vagou no mundo procurando resposta para sua solidão.

Nicolas se formou em Medicina como seus pais queriam. Fez residência em Utah e casou-se com uma italiana. Em cinco anos, largará tudo e comprará uma passagem de ida para Índia. Deixar para trás, casa, carreira, mulher e suposto filho. Para a sociedade era egoísta. Para o mundo, um flâneur.

Ao passar com seu Audi TT Coupé ano zero, viu do lado da rodovia uma casa com uma placa que dizia Vendo canjica - 60 centavo. Largou o carro do lado de uma carroça. Nas 3 horas que se seguiram, só levaram o rádio. Sentou-se em um banco de ônibus, próprio para aquele viajante a procura de alimento com direito a leite condensado. A canjica era patrocinada por Ronaldo, o mecânico.

# Uma canjica, por favor.

A mulher, Dona Cacau, senhora gorda que usava uma camisa furada de um candidato à político, olhou-o de baixo para cima.

# Para viagem?

# Não, para agora. Com leite condensado. Tem?

# Claro!

Era o sinal positivo para que Dona Cacau contasse que morava ali há 10 anos e que tinha um filho na prisão que mandava sempre latas de leite condensado para ela no fim do mês.

# ... aí ele foi preso, doutor. E o comando continua lá em cima.

# Entendo, disse Nicolas, limpando a boca com um pedaço de toalha de papel.

# O senhor quer mais uma?

# Sim.

Os dois conversaram por três horas. Ele contou o porquê das pessoas esperarem tanto na fila do hospital e ela o porquê das pessoas, mesmo sendo boas, serem seqüestradas. Riram sobre o final da novela das duas, sobre a corrida de garçons em Copacabana, sobre a vida de Nicolas.

Quando saiu dali, jogou o carro em um vão com lama. Ligou para mulher dizendo que não a amava. Comprou a passagem pelo celular, mas antes de ir, passou em uma papelaria em Madureira e adquiriu um bloquinho. Seria seu laptop. Uma caneta Bic preta.

Pegou um ônibus e através do vidro, viu a cidade passar. A sensação de despedida era ritmada pelo tilintar da tinta de sua Bic. Anotou tudo. Só precisava de água para viver no mundo. Água, um bloco e uma caneta.

Seu instante na flânerie cabia na linha de sua mão. A rua era sua casa. A banca de jornal sua biblioteca. As línguas aprendidas, inglês, espanhol, alemão, português, frânces e árabe estavam em sua mente. O oxigênio existia na Terra.

No Brasil, na Índia ou na América Central as pessoas continuavam a se matar. Seja no Líbano ou no Canadá, a morte o perseguiria. Na selva ou na cidade, o homem era predador. Um caso de vírus mutante, enraizado no DNA, a brutalidade que corrompia a alma.

Ele havia achado uma cura ou pelo menos um meio de se entorpecer. Puxou a corda do ônibus e desceu. O mau cheiro do local poluído perto do aeroporto penetrou em sua narina. Sentou-se na cadeira fofa do aeroporto. Sua mão não parava. A partir daquele momento, descobriu-se escritor.



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sexta-feira, agosto 04, 2006

Os baldes

Era mês de agosto e o planeta Marte estava mais brilhante no céu noturno. No especial dia 27, Eloá retirou da caixa de papelão sua luneta, herança bizantina de seu tataravô. A olho nu, tão grande quanto uma lua cheia, Marte, mais próxima da Terra, perdia-se na íris da menina.

Meia-noite. A hora encantada de seu aniversário. Era a única menina da sala que tinha nascido nesse horário. Os mitos a fortaleciam porque se sentia segura na hora indevida.

Pisou firmemente nos degraus que saiam de sua casa e foi para o quintal. Segurava firmemente seu legado familiar. Atravessou um varal de roupas lavadas que cheiravam a sabão de coco e pedra anil. Baldes laranjas espalhados na parte desse pequeno terreno domiciliar.

23:46 A atmosfera de Marte é bem diferente da terráquea. É o quarto planeta a contar do Sol.

Eloá retirou a poeira da luneta com o sopro vindo de seu pulmão.

“Coisas antigas não vão embora com facilidade”, pensou.
Passou o dedo fortemente sobre a lente. O céu clareou.

23:47 A face de Marte, monte nas planícies do norte erodido pelo vento, permeia a mente das pessoas que buscam vida inteligente.

“O deus da Guerra. Nirgal. A estrela da Morte”. Eloá lembrou das aulas de geografia com professor Altair, negro, partidário de frases de efeito e de jogos entre alunos. Ela fez com que sua turma ganhasse a gincana no último ano do colégio devido a seus dotes astronômicos. A lei das estrelas a fizera ganhar popularidade entre os garotos.

23:48 As fábricas que na Terra produzem gases nocivos ao planeta, em Marte teriam um efeito de terraformação caso grandes fábricas fossem arquitetadas. Esse processo teórico modificaria o planeta para melhores condições humanas de habitação.

Eloá piscava o olho esporadicamente. Queria sentir o planeta que a regia. Mutucas eram figuras permanentes naquela região. Eloá bateu em sua perna, tentando afugentar alguns. Os mosquitos persistiam.

23:49 Marte. Indômito. O astrônomo grego Hiparco verificou que Marte nem sempre se movimentava de oeste para este. Ocasionalmente, o planeta invertia o seu caminho no céu para a direção contrária; para depois recuar a deslocar-se normalmente.

Eloá congelou seu movimento. Um frio na espinha e um nó na garganta. Entretanto, não podia tirar os olhos do céu. Queria gritar, mas não conseguiu. Deu passos, recuando. Mutucas continuavam picando suas pernas, abaixo do vestido. A menina tremeu.

“Meu Deus. Preciso mostrar isso para alguém”.

00:00 Afogamento é a asfixia gerada por aspiração de líquido de qualquer natureza que venha a inundar o aparelho respiratório. Haverá suspensão da troca ideal de oxigênio e gás carbônico pelo organismo.

Nitidamente Marte pairava no céu da Terra. Mutucas picavam. Eloá tentou desviar, ainda olhando para o céu.

Os chineses, coreanos e japoneses chamam-lhe "Estrela de Fogo", baseando-se nos cinco elementos da filosofia tradicional oriental. O planeta esculpido na imensidão celestial emanava força de Ares.

A menina, dando passos para trás, esbarrou nos baldes laranjas. Mutucas picavam ferozmente. Para não cair, segurou no varal, que despencou violentamente. Seu rosto foi diretamente para dentro da metade de um balde com água. Queria se levantar, mas não conseguia. Suas mãos estavam presas pelas roupas. Mutucas picavam.

Debateu-se por cinco minutos. Segurava fielmente sua luneta. Hoje sabemos que poderá ter existido água abundante em Marte e que formas de vida primitiva poderão, de fato, ter surgido.

00:30 Duas luas no céu límpido de agosto. Uma luneta no chão. Baldes laranjas espalhados. Mutucas.
Não perca. A próxima vez que Marte vai aparecer assim será em 2287.



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quinta-feira, agosto 03, 2006

O criador de galinhas

Emmanuel, economista, 40 anos, primogênito e carnívoro, em uma tarde singela de terça-feira, resolveu criar galinhas. Deu a volta no bairro de bicicleta e entrou no sebo “Os ácaros mais novos da cidade”. Seu indicador nervoso escolhera um título de 1985: “As galinhas dos vizinhos engordam mais?”

Seu conhecimento ovíparo havia se perdido na sétima série, mas prosseguiu, satisfeito, com sua aquisição burlesca literária. Passou no aviário e comprou ½ dúzia de galinhas e um galo preto. Gamão, assim o apelidara.

Na manhã de quarta-feira quebrou o cimento de seu quintal. Não todo, só a parte leste. As aves precisam de espaço para ciscar. Sua mulher Sonia ajudou a carregar os sacos de alimentos dos animais para dentro de casa.

Em um mês, as galinhas multiplicaram. Farturas de ovos, ciscamentos felizes. Emmanuel estava contente. No quadragésimo dia de estadia em sua casa, Emmanuel reparou em seu Gamão. Depois de copular com seu harém de aves, o animal olhava intrigado para sua Sonia. A mulher retribuía o olhar acariciando a crista do bicho.

Teve pesadelos naquela noite, mas na manhã seguinte se acalmou quando o aviário da esquina faliu e os seus fregueses triplicaram.

# Gamão está bem, Sonia. Mas precisamos de outro macho.

# Ele dá conta, Manu.

Emmanuel coçou o bigode ralo. Sonia jogou milho para as galinhas.

Em 3 meses, o aviário particular de Emmanuel ganhou o Selo de Popularidade Local. Ele colocou aparelho nos dentes, detalhes alaranjados, e pagou uma lipo para sua Sonia.

Gamão continuava seu trabalho árduo e Sonia, com seu corpito novo, estava mais completa.

Dia 27 de julho, ao chegar mais cedo em casa, depois de ter sua consulta cancelada devido à erros de horário da recepcionista, pegou Sonia, em sua cama coração, sendo acariciada pelo bico do Gamão. Furioso, Emmanuel agarrou o galo pelo pescoço. Sua Sonia chorava. Balançou tanto a cabeça do bicho, bravejando palavras grosseiras que o osso partiu em dois.

Todas as galinhas soltaram grunhidos medonhos. Sonia tampou seus olhos. As galinhas cercaram Emmanuel. Ciscaram tanto sua pele que ainda na manhã seguinte urubus iam e vinham do céu para o quintal.

Sonia deixou a casa. Virou vegetariana.



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quarta-feira, agosto 02, 2006

Snooker

# Estou orgulhosa de você: você fudeu tudo bem e decentemente.

# Não me enche, guria.

# Quanto tempo você leva para atingir o orgasmo?

Leo mother fucker acertara a bola preta do oitavo jogo de sinuca. Mesa oficial com acabamento em embuia e base em pedra ardósia.

# Quanto tempo você consegue se concentrar, Gabrielle?

# Hum... depende da zona erógena.



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terça-feira, agosto 01, 2006

Gracinha

Gracinha foi empurrada para dentro do metrô. A multidão a levara para o sentido contrário. Teria que esperar mais cinco estações para que pudesse voltar.

Não poderia fazer nada, então, suspirou. Um sujeito acima de sua cabeça começou a gargalhar. A loira, a seu lado, espremida entre um protótipo de chinês e um suburbano, espetara sem querer uma parte sensível da pele do cara, com seu palito japonês.

# Desculpa. Desculpa, disse, sem graça a loira. O sujeito parou de rir.

# Tudo bem. Brasileiro é muito feliz mesmo!

O vagão deu uma freada brusca. Os animais humanos, em calor uníssono, foram projetados para o mesmo lado, graças às leis da Física. O sujeito começou a gargalhar novamente.

# Todo mundo eleitor do Lula. Viva!

O vagão inteiro, inclusive as velhinhas que sentam nos bancos verdes ao invés dos laranjas, mostrou os dentes. Se na desgraça não há ninguém para culpar, xingue o governo. Viram piadas em dois segundos.

O sujeito tendo conquistado sua platéia privada, danou-se a perolar o português.

# Ai, meu Deus! Não consigo piscar meus olhos!

Mais um ziguezague antes do metrô entrar no subterrâneo. Ninguém cai. A Física unida não deixa.

Gracinha tentou virar para o outro lado e respirar mais livremente, já que o sujeito e a loira começaram a rir como companheiros, fazendo um muro sobre sua cabeça, impedindo o oxigênio de circular a seu favor.

A estação seguinte fez com que 1/3 da população do metrô descesse. Gracinha se encostou perto da porta. Uma mãe e filha adolescente conversavam.

Mãe: # Você tá com o cabelo igual daquela cantora de ópera. Qual o nome dela mesmo?

Filha: # Ã! É! Ah! Vanessa da Mata.

Mãe: # É.

“Viva a cultura underground”, pensou Gracinha.

Na próxima estação desceu. Agora tinha que atravessar um mundo de escadas rolantes para pegar outro metrô. Quando a porta que a levaria para casa se abriu, uma velhinha de salto rosa bico fino pisou em seu pé e passou à sua frente. Correu vitoriosa e sentou-se no banco verde, apesar do laranja vazio.

A porta abriu e fechou.

Gracinha sentou em outro banco, mancando. Felicidade não tem preço.



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