terça-feira, fevereiro 26, 2008

Acima das veias e abaixo do tecido natural

Ela procurava alguém para preencher sua pele e acomodar seus ossos. Rodou a cidade e só encontrou candidatos com agulhas enferrujadas tortas. Então, ela voou alto lá pras bandas lestes e colocou lã de ovelha acima das veias e abaixo do tecido natural. Depois nadou e sonhou que não havia mais ninguém no planeta. Agressivamente, ela acordou, arrancou a lã e sangrou sangrou até que um menino do outro lado do planeta, com sua agulha enferrujada reta, costurou sua pele e perguntou se ela estava bem. Ela sorriu e logo em seguida matou a ovelha. Poderia morrer de tétano, mas pelo menos do lado de fora as linhas da agulha eram bonitinhas.



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terça-feira, fevereiro 19, 2008

O motoboy sem capacete

João Marcelo era um jornalista de bairro. Havia feito Ciências Agrárias, mas tinha um conhecido que conhecia o editor-chefe. Nas horas de trabalho, mastigava formigas. Não as engolia, só gostava de ter a sensação na língua. Ele era alérgico a pimentas, mas fanático por ardências.

Aconteceu rápido demais em uma tarde de domingo. Dia nublado, mas abafado. Estava cobrindo uma matéria sobre poluição urbana. Ele degustava seus aperitivos quando um motoboy sem capacete fingiu jogar a moto em cima dele. João Marcelo se engasgou e teve convulsões esporádicas. As formigas desceram garganta abaixo, alinhadas como em penitência. Foi capa do periódico local. Enquanto a agonia do sufocamento percorria seu corpo, ele só se lembrava do atraso do IPVA. Ele sempre fora correto quando vivo, mas desleixado morto? Quem ficaria com seu carro? Quem mudaria a posição do banco? O novo dono deixaria o cão da rua urinar em seus pneus?

Foi salvo por uma ex-garota de programa evangélica que passava no local. Ela enfiou o salto fino na garganta, de forma certeira a fazê-lo respirar. O jornal informou que as formigas ainda chegaram ao hospital vivas.

João Marcelo recuperou-se rápido. Agora ele senta, antes de começar o trabalho, no degrau da escada do jornal e coloca rapé nas narinas para espirrar. Recebeu durante 3 meses um abono de 2% pela popularidade momentânea.



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domingo, fevereiro 10, 2008

O homem expatriado

Ele era um especialista expatriado com inglês fluente. Tinha 3 anos de experiência como sênior de expatriado, com conhecimentos de imigração, diversos assuntos de vistos e assuntos fiscais. Trabalhava em uma multinacional de grande porte do ramo de óleo/gás. Era fã de Nicole Kidman e comprou o novo cd do Radiohead, In Rainbows, dois dias antes do acontecido.

Ele se viciava fácil. Era o tipo de vício do século XXI: o vício do enjôo. Do tédio camuflado em estar atento às novidades. A única coisa que ainda permanecia em seu gosto era sua apreciação por música depressiva. Por mais que a tecnologia tivesse trago alegres experiências, os seres humanos ainda tentavam preencher um saudosismo existencial.

E ele passava algumas horas sentindo a dor de não ser completo. Imaginava as vidas imigrantes como grandes filmes do YouTube. Poderia anexá-las em sua parte de vídeo do Orkut, podia compartilhá-las via MSN com alguém de Singapura. Mas ele nunca fazia isso no plano real, só sacolejava os dedos da mão fina. Sua mente era uma batida de teclado eletrônico, sempre pronto para acrescentar um vocal melancólico.

Mas ele era normal para os padrões sociais. Não fumava, bebia socialmente e trepava de 15 em 15 dias. Dava bom dia para os colegas de trabalho, brincava de amigo oculto, participava das festas de aniversário. Quando o encontraram, seu MP4 tocava All I need, arranhado na frase I’m in the middle of your picture. Em sua mão, pequenos cortes feitos com tesoura de unha, aquelas portáteis. Na outra, uma maleta com todas as fotos digitais de quando era pequeno. Ele era um ex-gordo. Nos pés, fotocópias de bilhetes de entrada de cinema e um papel escaneado com uma letra de música. Seus olhos estavam fixos na imagem do espelho. Ele não gritava, nem cheirava a nada. Mas todos ouviram o som da morte envolta a seu corpo. Alguns ainda chegaram a ver quando ele levantou sua mão e tocou seu rosto avermelhado. Outros viram que suas pernas se dobraram como sinal de reverência.

Então o som da dor explodiu em mil pedacinhos. Todo o departamento levou suas mãos ao ouvido. Tentaram esquecer o barulho, mas ele chegou como alfinete em todos os tímpanos. O especialista expatriado com inglês fluente morria grudado em sua própria imagem, com post-its pendurados em seu bolso esquerdo. Era o último romântico da era.



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