segunda-feira, outubro 22, 2007

Querida Augustine,

É preciso crescer para entender as articulações dos sistemas. Os cortes. As infusões. Todo o esquema, a espera. É possível sonhar, Augustine. Não permitir-se podar. É preciso crescer e verificar as cicatrizes e as histórias por trás dos motivos. Só assim se aprende a cultivar. Como eu mesmo fiz semana passada, é necessário saber os comos e os porquês e se é válido persistir nesse caminho. Doce Augustine, espero que compreenda. Há seres humanos mais selvagens que outros. E isso se justifica não pelos atos, mas pelos instintos. Pelo vício. Pela forma como eles sobrevivem sufocados, envelhecendo e repetindo-se sempre como a sombra que os persegue. Todos nós a temos. Uns a libertam, outros a fazem correr por cima de suas cabeças. Eu e você, fomos drenados por ela. Somos refrescados a cada dia.

A próxima caçada se dará entre a rua 24 e a 32. Há um homem parado lá todas as terças. Ele tem 41 anos, não é? A sombra dele está acima de nós. Já comeu 25 menininhos. Para fazê-lo desmaiar é só passar o fio pela artéria que leva ao coração. Depois cortar os lóbulos e pendurá-lo como abate. Ele derreterá como suspiro. Não perca tempo com sua ansiedade, doce Augustine. Espere. Corte. Espere. Corte. Espere. Corte. A infusão se dará em 67 graus. Espere.

Seu,
P.



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domingo, outubro 14, 2007

O mal do século

João Lucas acordou achando tudo indiferente. Não importava abrir os olhos e levantar da cama faltando 2 minutos para estar atrasado.

Ele tinha o dom de roubar tempo. Mas roubar tempo lhe dava atrasos. Para cada minuto roubado, ele perdia dois. O dom era irônico, como a vida era sarcástica para quem apreciava.

Acontecia sempre de manhã. Roubar tempo para pão, para pegar o metrô vazio, para olhar a saia que o vento cisma em espiar.

Roubar demais era seu problema. Uma vez na marginalidade, o vício corrompe. João Lucas até tentava levar uma vida normal, mas conforme o tempo ia encurtando, ele furtava mais. Apanhar segundos dos outros às vezes era divertido. Às vezes era assustador, como da vez que ele roubou o tempo da moça que estava prestes a falecer. A agonia de um minuto pré-morte ele disse que não queria provar nunca mais. Foi aí que ele desistiu de pular de bungee jumping.

Mas enquanto os segundos rodavam pela vida, ele permanecia parado. Deitado na cama de colchão duro. Uma vez no leito, os segundos não eram presos em seu pensamento. Ele ouviu seu laptop apitar uma mensagem recebida. Alguém queria falar. Contar um segredo obscuro. Perguntar como se conserta corações, gritar para abafar o sentimento de solidão.

João Lucas não ousou levantar. Mas outra mensagem piscou. E outra. E outra. Parecia que o mundo queria respostas e o que ele pensou de imediato era como o toque tinha sido substituído por palavras. Se houve um século de oratória, esse seria o do dom de escrever.

Palavras digitadas acalentam almas. Sejam elas verdadeiras, inverossímeis ou mentirosas. Se esse era o século de vocábulos, também era o de mentiras. E João Lucas também trabalhava com essa arte.

Ele mentiu e roubou dois minutos. Perdeu 4 porque o laptop travou e ele teve que reiniciar. Quando abriu a caixa de suas mensagens, ele respondeu à interrogação: Sim, claro que sou seu amigo.

O século de palavras sorriu, mentindo descaradamente sobre perguntas inverossímeis.



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sexta-feira, outubro 05, 2007

Manhã de sexta

Ela tirou o sutiã e deitou de costas. O restinho de sol queimou algumas pintas em sua imensidão branca. O travesseiro chorava pilhas de líquido salgado. A cama com seu edredom envelhecido a aconselhava: “Estamos aqui de novo. Com um céu de chuvas de dores. Apresento hoje o coração da mulher que dizia que nunca iria amar um estranho conhecido. Qualquer tolo pode se deixar enganar. Aqui estamos novamente. Seu coração será quebrado de novo e ela fará a parte do papel de boa mocinha mais uma vez”.

Seus seios balançavam livres e ela foi até a janela do apartamento e abriu a persiana. Lá fora, o vento que contornava os prédios. “Qualquer tolo pode se deixar enganar”. “Aqui estamos novamente”.

Ela pensou em fazer um piquenique. Ela e as frutas. Uma cesta com toalha quadriculada. Música americana no mp3 do camelô. Pilhas recarregáveis. Cachorro da vizinha. Água potável e óculos escuros.

Permaneceu com os peitos livres olhando para o concreto que sorria. Depois colocou uma blusa branca e sem qualquer pudor, foi até a padaria e comprou um chumbinho para ratos.



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segunda-feira, outubro 01, 2007

A vida limpa de Benicio

Benicio tinha a vida limpa. Limpa demais. Ele tinha seguido todas as regras da sociedade ocidental. Todas que levariam a seu sucesso. Seus pais pagaram os melhores colégios, ele fez pré-vestibular, curso de inglês e espanhol. Estagiou, engravidou a namorada, abortou, tomou porre, participou de chopada, acampou em Sana. Tudo era redondamente previsto sobre seu céu de estrelas.

Entretanto, por mais que ele tentasse se encaixar como adulto em seus 25 anos, o que ele mais queria era preencher o vazio dos significantes que entravam e saíam de sua vida. 70% dos seus amigos do Orkut ele queria apagar permanentemente. Ele até conseguia chegar perto da tecla DEL, mas seu indicador timidamente recuava, lembrando que as pessoas não eram mais pessoas e sim contatos de networking. Ele seria lembrado. Um dia.

Um dia ele entenderia o que gostaria de ser. Essa inquietação que ele trazia sobre os ombros não era o peso de seu filho morto, que às vezes ele lembrava quando cruzava com a menina de seu prédio. Era a confusão de sua existência, os minutos que ele ainda poderia viver de forma diferente, mas se contentava apertando o start do PS2.

Benicio também gostava de miojo. Mas não comia o pó do tempero porque era cancerígeno, segundo as lendas de supermercado. Quando ele caminhava pelas seções dos produtos de higiene e via as famílias de modelos cheirosos, ele sempre sorria. Sorria porque era engraçado ver a combinação das cores e como as crianças tinham cabelos penteados até debaixo do chuveiro.

Ele não sabia que sua história também era limpa, mas tinha uma ligeira impressão que a vida nada mais era do que uma bucha vegetal. Pelo menos a sua.



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