segunda-feira, janeiro 29, 2007

Capivara

O Parque Nacional Serra da Capivara é o maior sítio arqueológico do mundo. A 550 km da capital do Piauí, Teresina, o Parque tem milhares de pinturas rupestres, a mais antiga data de 17 mil anos. Há vestígios da presença humana no Parque de 48 mil anos. Talvez a teoria da chegada do homem às Américas seja realmente diferente.


A pintura 7.598 é de uma menininha pobre que vive perto de um poço.
Dos dedinhos amarelos um vento insano brota. Anabela. Tão bela que ofusca. Traz para a imensidão árida o verde da chuva.

Existe uma lógica até a morte? O hábito de viver vem antes do ato de pensar. O corpo mantém a vantagem da sobrevivência, talvez por isso questionamos tanto. Nossa razão e nossa inteligência sempre estão atrás da existência. A evolução avança sem pedir licença ao nosso conhecimento.

Anabela coleciona desenhos de capivaras. Ela os pinta no chão seco. 7.598 é o número de vezes que as já desenhou. Ela é mais uma agregada expressando comportamento instintivo. Testemunha silenciosa de um tempo imemorial.

Anabela fecha seus dedinhos amarelos. Estala suas articulações. O dedo anelar dói. O verde volta a ser terra. Anabela pensa nas capivaras e como gosta de desenhá-las no chão. Talvez mais tarde ela vá até a gruta e as pinte novamente. Por enquanto precisa voltar para casa. É tarde e animais selvagens rondam a região. Ela poderia deixar o mundo sempre verde, mas o ser humano só se faz em sua plenitude por meio de lutas. E sua linhagem é bem dotada na região. Se houvesse paz sua família seria escrava.

Os dedos amarelos só se abrem em dia de pintura.



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sexta-feira, janeiro 26, 2007

Luzes

Irlanda do Norte. O tempo nos carrega.

Moara toca levemente o vento. Segundo Camus, há um universo do ciúme, da ambição, do egoísmo ou da generosidade. Um universo, isto é, uma metafísica e um estado de espírito. Os grandes sentimentos trazem junto com eles seu universo, esplêndido ou miserável.

O toque eólico abre uma fenda. Ela tem um anel mágico. Daqueles que cruzam universos. Ciúme, ambição, egoísmo ou generosidade. A abertura pode trazer junto qualquer sentimento.

Moara sabe que sua humanidade pode ser esplêndida ou miserável. Mas mesmo assim, ela efetua um buraco na dimensão. Curiosidade humana. Benção ou fardo.

Calçada dos Gigantes. Cavernas. Claustrofobia.

As luzes acalentam nosso cérebro. A escuridão atrapalha o raciocínio.

O verme se acha no coração do homem. É ali que é preciso procurá-lo. É preciso seguir e compreender esse jogo mortal que arrasta a lucidez em face da existência à evasão para fora da luz. As palavras de Camus rodeavam os pensamentos analíticos de Moara. As frases se transformavam em orações complexas.

Como o pensamento humano é medíocre. Na hora do desespero só ouvimos as palavras dos outros.

Moara fecha a fenda. Quando ela retorna, a luz a corta em losangos. O reflexo são estalactites em um abismo profundo. Ela trouxe o sentimento. E o espalhou no mundo. Sua mãe dá mil dólares para quem descobrir o que se passa na cabeça da menina. Eu tenho o endereço anotado na palma de minha mão esquerda. Bem perto de minha pinta que some em ano bissexto.



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quinta-feira, janeiro 25, 2007

Só os bobos passam a vez

Atenção Raio X: entrada proibida a pessoas não autorizadas.

Maria Alice abre seu cartão de 20 anos de namoro.

“Nesta sala pode permanecer um paciente de cada vez”

No cartão: “Te amo 20 vezes mais...”

“Acompanhante, quando houver necessidade de contenção do paciente, exija e use corretamente vestimenta plumbífera para sua proteção durante exame radiológico.”

No cartão: “Mas você quebrou meu coração mais 20 vezes.”

Todos na sala de espera. Telefone toca de 5 em 5 minutos. Recepcionista e sua repetição: Você terá que aguardar 40 minutos.

Ele seqüestra todos do Centro Radiológico. Pacientes ficam em exposição por 20 horas. Maria Alice não quer mais namorar. Ele está 20 vezes mais desesperado.

O amor. Ela usava um vestidinho de flores campestres. Ele tinha um bigode de suor. Ela queria que no casamento tocassem Wedding Bell Blues. Ele queria a abertura de Star Wars. Ela odiava flores e ele amava dar ursinhos de pelúcia. Ela tinha alergia. Ele fugiu para ir ao show de Ben Harper. Ela para Margareth Menezes. O amor. O amor.

Ele infringiu todas as regras do Centro. Maria Alice picotou o cartão. Mas ele não havia assinado. Talvez não fosse dele.

Quando a polícia invadiu a sala de Raio X, ele tinha na mão uma chapa e um monitor digital de 17’’. Maria Alice estava 20 cm abaixo da chapa. Ah! O amor!

No quarto de Maria Alice, 20 recados em sua secretária eletrônica. 20 chamadas não atendidas. 20 canais do país e um monitor perfurado por balas. O amor. Ah! O amor.



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quarta-feira, janeiro 24, 2007

Genérico

E ela teve um sonho genérico. Sonhou que era uma cebola e sua vida era baseada em camadas de desgraça e/ou sorte contínua. Acordou e comeu uma paçoca. Dizem que ela é afrodisíaca.



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terça-feira, janeiro 23, 2007

Conversas alheias ao pé de um monólogo de ouvido

# Todas as grandes ações e todos os grandes pensamentos tem um começo irrisório. As grandes obras nascem, freqüentemente, na esquina de uma rua ou no barulho de um restaurante.

# Alberto Camus.

Moema e Iuri em um restaurante chinês.

# Flores, pragas ou sementes?

# Pragas.

# Capivara, queijo ou jujubas azuis?

# Queijo.

# Puro Osso ou Mandy?

# Mandy.

# Iuri, o TeProcurando.com.br estava certo. Você é a minha alma gêmea.

Moema e Iuri e um beijo vagabundo com gosto de Yakisoba.



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segunda-feira, janeiro 22, 2007

Isle de la Cite

Isle de la Cite. Ilha no Rio Sena. Paris, capital da França. Catedral de Notre Dame. Mo Kaiser Ferreira é atacado por gárgulas. Anos luz dali Kaiser Mo Ferreira ouve o tilintar da chuva em uma telha quebrada.

Realidades são figuras demoníacas.

A gárgula arranha o ombro direito de Mo Kaiser. Kaiser Mo olha o reflexo de seu cabelo na poça de água janela abaixo.

Imagens são realidades invertidas.

A gárgula é atraída por um crucifico no peito de Mo Kaiser. Ele corre para o telhado.

Noites são dias ao contrário.

Kaiser Mo tem no peito uma vontade de voar e tocar a poça com o dedo.

Invertidas são vontades de cabeça para baixo.

Mo Kaiser suspende a mão até a orelha do desaguadouro.

Vontades para serem vontades devem manter-se distantes.

Kaiser Mo se depara com a vontade incontrolável. Dentro da poça ele vê a praça principal.

Distante é uma realidade demoníaca, invertida, da noite de uma vontade de cabeça para baixo.

Mo Kaiser joga o crucifixo para o pêndulo do ar. O pêndulo do ar é o tempo da dimensão daqueles que estão prestes a cruzar o limiar do corpo e da alma.

A alma está no cérebro em porcentagens.

Kaiser Mo vê a gárgula sair da poça, arranhar seu braço, mas ele não pode voltar porque seu corpo já está no ar, chegando mais perto da poça.

Mo Kaiser tem a alma liberta. A gárgula se fora. No chão somente uma estátua de pedra.

Kaiser Mo jaz deitado. Em sua dimensão, somente pequenas pedras polidas que se misturam em seu cérebro retalhado. A poça dispersa seu sangue. A gárgula assobia aprisionada.



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sexta-feira, janeiro 19, 2007

Sapo encantado

Era uma vez um sapo encantado. Ele cantou tanto que teve problemas na garganta e amigdalite. Casou-se com uma professora e transferiu o problema para a amada.



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quinta-feira, janeiro 18, 2007

Ony-Akara

Miranda planejara a viagem por dois anos. Cataratas do Niágara. Leria muitos livros, treparia com estranhos, gozaria do livre arbítrio de não escolher.

Entrou dentro da embarcação turística que nem criança com boca aberta. Havia lendas sobre arco-íris, foi o que pensou. Em algum tempo atrás, quando eu ainda esquecia.

Como era bom perder a memória, como era relaxante não ter passado e contar os dias a partir do presente.

Ony-Akara era a única coisa de que lembrava em dois anos. Segundo Camus, um homem é sempre a presa de suas verdades. Uma vez reconhecidas, ele não saberia se desligar delas. Miranda tinha um plug nas verdades alheias. As delas ela enterrara em um campo de golf 2 verões atrás.

Dentro da embarcação, ela lembrou por 2 segundos, atrás de véus e quedas d’águas, de como ela fez uma oração fortemente quando viu um anjo se esconder atrás das nuvens. Ela não queria ser Fátima, muito menos sua irmã, pois ela morrera jovem e Miranda queria muito apagar mais de 20 velas.

Ver um anjo era assustador. Lembrar dele após 2 anos de memórias zero era aterrorizante. Em um minuto caem 450 milhões de litros de água. Ony-Akara. Em outro minuto, Miranda relembra todos os movimentos dolorosos do ontem adormecido. Ela cospe na água barulhenta.

O que é um cuspe no meio de águas que evaporam antes mesmo de chegar ao chão? Ela lembraria, mas forçaria a mente para poder apagar as memórias. Era seu segredo de Fátima. Quando a embarcação deu a volta e a água respingou em seu rosto, ela relembrou pela última vez como sua arma branca atacara um grupo com metralhadoras. Como ela parou as balas com o tilintar de uma tradição milenar.

Ao tirar o colete de salva-vidas e pisar em chão firme, Miranda sorriu para o arco-íris das Cataratas.

# Ony-Akara, ela disse. Obrigada. Ela não teria mais lembranças e estava aliviada por isso.



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quarta-feira, janeiro 17, 2007

Ossos do ofício

Os meninos que usam tocas não precisam esquentar as orelhas. A menina-mulher da pele preta é sortuda. Suas rugas não serão pés de galinha. O velho que bebe muita água se exercita sempre indo ao banheiro. A senhora que sai com o guarda-chuva em tempos de sol sempre diz “Pega minha sombrinha aí!”

Eu caminho para o farol em busca de luz divina. Em busca de preenchimento cerebral e amor. Conto os sapos que caem no Nordeste. Eles voam, mas caem mortos. Eu escrevo como quem apanha chuva. Meu nome é Hanani e tenho um encontro com Bridget.

Bridget irá me promover, mas eu morrerei engasgado com uma barrinha de cereal do Carrefour. Sentirei minha afta estourar quando a glicose de milho se espalhar pela garganta. Também contemplarei o silêncio da casa e os porta-retratos dos colegas de trabalho. Terei um descontrole eufórico. Bridget comprará caixas e caixas de flocos de arroz para que o mecanismo ocorra novamente. Nada acontecerá, ela ainda terá que pagar as contas de luz. Ela continuará a não limpar a poeira dos cantos. Quando receber a notícia de minha morte, dirá: “Esse é o nosso mundo, o que é demais nunca é o bastante.”

Sempre parafraseando orações de outrem. Não irá ao enterro, mas mandará orquídeas. Enquanto pessoas jogarem terra sobre minha carne com formol, ela estará colocando roupa dentro da máquina.

Tudo bem, tudo bem, ela repetiria para si. Mas dentro de sua alma amedrontada, ela se seguraria nas paredes e gritaria. Seria chicoteada e chagas apareceriam em seus pulsos brancos.

Eu terei ido, mas o destino é sempre deixado para os que ficam. Ossos do ofício.



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terça-feira, janeiro 16, 2007

A cada ano

A cada ano, o planeta Terra completa uma volta em torno do astro-rei, o Sol. O nome mais conhecido para este ciclo é "aniversário". Acontece que nosso planeta não faz um movimento circular exato e, justamente por isso, a hora do nosso aniversário não é a mesma do nosso nascimento, e pode acontecer de nem mesmo o dia ser igual. Considerando estes novos dados, uma nova carta astrológica é composta. E este é o seu mapa do ano, também conhecido pelo nome de Revolução Solar.*

Maitê ajeitou seu vestido de filó, caracóis desenhados na borda da saia. O dia de seu aniversário terminaria com um céu limpo, de estrelas cintilantes, perfeita noite de primavera, com ventos planando pelas árvores noturnas.

Ela estava nervosa. Seria sua primeira vez. E como toda primeira vez, um ronronar na boca do estômago. O ser humano, tão apto a invenções e destruições, ainda era um ser pequeno, daquele que indaga sua dimensão quando em todas as primeiras vezes se topa com o desconhecido.

Ela roía a unha do dedo médio, estragando sua francesinha. Não era um movimento circular exato, mas ela teve certeza, por dois segundos, que era gostoso viver.

Novos dados seriam transportados para seu saber logo em seguida. Maitê freara. Guinada no carro faz seus cabelos subirem e descerem. Deitada no chão, Nicole e seu corpo trêmulo.

O sangue tinha gosto de chumbo. E por vezes era demasiado espesso. Maitê e seu sopro do dragão. A verdade que assombra, aquele que traz fogo aos olhos. Nicole tinha os sentidos dormentes. O corpo queria viver.

Maitê deveria estar assoprando suas velas de luz, Nicole deveria estar jantando frango xadrez.

Todavia, as duas estavam se olhando quando a Revolução Solar cruzou a carta astrológica. Maitê veria o planeta Terra completar mais 30 voltas em torno do Sol. Nicole não notaria os dias mais. No lugar de luz, ela passaria os próximos 30 anos vendo caracóis desenhados na borda da saia.

*www.personare.com.br



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segunda-feira, janeiro 15, 2007

Abre caminho

Arruda, guiné e abre caminho. Depois de um bom banho, 1 vela e 1 pedido. Proteção divina.

Sandoval sai do banheiro com sua caixa de aranhas albinas. Papa moscas. Sentado 6 minutos depois em sua calçada de ladrilhos vermelhos, ele se assusta com o barulho do velotrol do garotinho japa de 3 anos. Alta tração nas rodas de plástico.

Ao abrir a caixa cuidadosamente, um raio ultravioleta penetra no interior fazendo com que as aranhas sejam perturbadas. As crianças vibram.

O ninho de amor é um pedaço de arruda com figueira. Sandoval apostara com os meninos da rua que suas aranhas chegariam à Rua Augusta sem serem atropeladas. Elas seriam guiadas por seu assobio.

Luquinha e Matheus apostaram 10 reais no veículo que atropelaria as albinas. Gertrudes e Amelinha apostaram 25 babaloos. Sandoval só queria a fama.

Nunca ele fora tão aclamado. Suas amigas albinas adormeciam tranqüilamente dentro do interior de papelão enquanto que apostas corriam pela rua Leopoldina. Pardais, havaianas, cerol, pipas de times de futebol. Tudo era apostado. O veículo mais cobiçado era o caminhão de lixo que sempre passava às 2. E ninguém, ninguém votara na sobrevivência das albinas.

Às 13:30 Sandoval soltou as bichinhas. Pobres criaturas, perdidas com a luz do sol. Rodopiavam feito baianas na ala velha. Meninos e meninas gritaram de euforia quando o caminhão cruzara a esquina.

Sandoval, compenetrado, entregara seu destino à fé louca dos que crêem.

As criaturas albinas estavam se dispersando aleatoriamente, quando Sandoval grita:

# Rua Augusta! Sigam-me!

Passos firmes de sandálias Ipanema. Sandoval coloca a mão na testa. O sol brilha brilha lá no alto. Ele assobia.

# Rua Augusta! Sem sol! Sigam-me.

Os meninos da rua gargalham. O caminhão parece empinar no asfalto. Sandoval vai pela calçada firmemente repetindo:

# Rua Augusta! Sem sol! Sigam-me.

Os dois menininhos da calçada da frente foram os primeiros a abrirem a boca. O caminhão de lixo percorre cada centímetro asfaltado da rua Leopoldina. As aranhas albinas somem e reaparecem na rua Augusta. Dependuradas por um fio de teia, elas abrem caminho, pêndulos no caminhão de lixo.

Sandoval acena.

# Adeus, amigas.

Ele agora seria o dono da rua.



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sexta-feira, janeiro 12, 2007

A gatinha que cagava mole

Beijinhos. O doce preferido de Jade.

Na casa de Vânia tinha uma campainha azul. Dessas que o dedo precisa afundar para que o toque apareça. O entregador do mercado apertou fortemente o azul naquela tarde.

Vânia abriu a porta com as mãos sujas de manteiga. Pelas pernas do entregador, uma gatinha se enroscou. Jade tinha 3 anos. Esbelta, obesa, um brilho de gata.Seu pêlo era espesso e firme. Seus olhos bolas vibrantes de energia. Vânia amava beijinhos. Sua receita preferida era aquela onde ela podia enfiar a mão na massa e depois adular as membranas entre os dedos. Escorregadio, o doce era mais saboroso quando lambido.

O entregador fechou a porta, levando no bolso uma nota de 2 reais e um pensamento no fim da tarde quando ele terminaria seu trabalho e lamberia o pescoço de sua amante.

Vânia deixava o creme amornar e depois fazia 20 bolinhas. Os olhos da gata pareciam beijinhos. Enquanto Vânia passava as bolinhas pelo açúcar cristal, Jade ronronava docemente na almofada de cetim indiano. Enquanto Vânia mergulhava seus pensamentos na vestimenta masculina de seu ex-namorado, Jade passeava em pensamentos pelo doce dentro da forminha.

Vânia e suas mãos untadas de margarina deslizavam pelo corpo do docinho, moldando-o perfeitamente. Jade se asseava impecavelmente, evitando pulgas. Cada beijinho era decorado com um cravo-da-índia. Vânia colocou as forminhas em um recipiente metálico, lembrando que cinza era a cor preferida de seu ex. Jade saiu de cima da almofada. Vânia engoliu um beijinho sem mastigar. Agarrou o cetim indiano e o colocou no meio das pernas.

Jade miou. Circulou pelo recipiente metálico e lanchou os 19 docinhos restantes. Vânia acariciava o braço do sofá lembrando de como era rígido o abraço de seu ex. Ela teria um orgasmo rápido e a gatinha começaria a cagar mole.



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quinta-feira, janeiro 11, 2007

Beijinhos

Lena encontrara no chão de sua cozinha um diário rasgado, bem atrás do buraco da velha prateleira. Algumas páginas amareladas, um pouco de traça nas pontas. Com uma colher de Nutella na mão esquerda, abriu a primeira página com a direita.

Hoje fiquei sozinha em casa e na geladeira havia um recado da minha mãe ” P/ Regiane. Arrume a casa, varra, limpe os móveis e passe álcool nos armários da cozinha, pois estão encardidos. Tire as panelas da geladeira. Mais tarde eu te ligo. Estarei em casa às 18:00. Te amo muito, beijinhos, Mamãe”. Se não fosse um detalhe, quando tínhamos empregada aqui em casa ela deixava os mesmo tipos de recados na geladeira, substituindo “p/ Regiane”, por “p/D. Zumira” , “Te amo muito” por “tenha um bom dia de trabalho” e “beijinhos,mamãe” por “beijinhos, Sueli”.

Meu cachorro precisa cruzar! Eu quero netos!!! – pensou rapidamente.

A mãe dela é ótima
, repensou Lena. Página esporádica, metade do diário:

Ontem o Digo me enviou um e-mail dizendo que estava triste por um sonho que ele teve, como boa namorada que sou procurei saber o que era.

Hahahahaahah, gargalhou Lena, quase se engasgando com a delícia da Nutella.
Uma virgem!

Virgens no século XX eram como pedaços de doce de leite no Nutella, impossíveis de se encontrar. Mas o subúrbio daquele século ainda tinha um ranço de tradição puritana. As crianças não eram incentivadas a ler e sim a decorar os episódios de novela.

Sei que não sou uma expert em interpretação de sonhos (e nem preciso ser pra dizer) mas creio que ele só sonhou com isso por medo mesmo de me perder. Só o que pude responder pra ele foi: “É mais fácil você encontrar uma nota de vinte no chão do que eu ficar com outro cara.”

Lena pensou em uma nota de 20. Hum... coincidências, pensou. A última vez que vira uma nota de 20 foi quando ganhou de seu pai seu primeiro pote de Nutella. Foi para página 122.


Já usei aliança de compromisso, agora só uso uma aliança se for de noivado ou casamento.

Dèja vu. Ela estava em uma posição mágica.

# Não, gritou. Não posso parar nesse século atrasado. Eles vão explodir o mundo com crianças! Essa garota vai ser uma arrombada! Não, esse Digo vai ser um inválido. E essa mãe! Essa mãe não vai acreditar que ela é minha salvação! Por favor, mais uma chance! Aliança? Por Nutella! Não.

Havia um livro oriental chamado Corão que instigava o corte do membro quando algo era roubado. Naquele século, quando um roubo acontecia o indivíduo era condenado a permanecer em um período odioso, isento de Nutella, revivendo histórias que abominava.

# Por favor!! Esse século não!

Como resposta, seu pote de Nutella caiu no chão. Desesperada, Lena lambeu o conteúdo todo, machucando sua língua com pequenos pedaços de vidro. Quando a menina levantou os olhos, na porta da geladeira encontrou:

P/ Lena. Arrume a casa, varra, limpe os móveis e passe álcool nos armários da cozinha, pois estão encardidos. Tire as panelas da geladeira. Mais tarde eu te ligo. Estarei em casa às 18:00. Te amo muito, beijinhos, Mamãe”.



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quarta-feira, janeiro 10, 2007

Chapéus vermelhos

Havia duas meninas de capas vermelhas na floresta de Boomkard. Elas trajavam vestidos pretos, bordados à mão. O frio era rigoroso, então se cobriam com capas que tinham capuzes vermelhos, tricotados na primavera passada. Elas não eram gêmeas nem tampouco irmãs, mas uma vivia à sombra da outra, amigas de ama seca.

Resolveram presentear a velha que morava do outro lado do rio. Não era por bondade, mas porque somente ela tinha o feitiço próprio para encantar o filho do lenhador. As meninas estavam envelhecendo. Precisavam do príncipe encantado. Disputariam a tapas o menino, mas seria por boa causa.

# Que vença a mais sortuda! - repetiam exaustivamente pelo caminho a fora.

Levavam em cada braço cestas recheadas com bolos, doces, torradas e mel. Tudo envolto em toalhinhas quadriculadas.

Pelo caminho, o vento uivava. Uma delas arranhou o pé delicado em uma pinha.

# Que vença a mais sortuda, a outra gritou.

Enquanto a do pé delicado mancava, a outra a empurrou e escolheu o caminho mais curto. Foi devorada por um lobo. Encontraram só o chapéu.

A do pé delicado caminhou lentamente até a casa da senhora. Chegando lá, a velha a recebeu de braços abertos. O vento uivava. A senhora fez um curativo no pé da menina e a presenteou com uma poção de amor. Disse que com aquele feitiço, o filho do lenhador já estava apaixonado, mas como era noite, ela deveria ficar em casa até encontrá-lo pela manhã seguinte. A menina não quis saber. Saiu da casa mancando e foi-se correndo. Foi devorada por um lobo no caminho de volta.

O pobre do filho do rapaz agora chora todas as noites sobre uma estátua de vidro. O lobo só gosta de menininhas.



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terça-feira, janeiro 09, 2007

Chapa

Era uma vez um menino muito muito curioso, tanto que subiu no telhado do vizinho e viu um esqueleto, em um cena um pouco inconveniente.

MENINO: # Ei, o que você está fazendo?
ESQUELETO: # Clareando os ossos, meu chapa.



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segunda-feira, janeiro 08, 2007

Joana Sabrina

Joana Sabrina limpou tanto sua cozinha, mas tanto que urinou na sua própria pia achando que era um vaso sanitário. Internou-se. Tomou SS demais. A Síndrome Semanal lhe custou uma nova limpeza, mas desinfetou a gordura viciada dos canos.



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sexta-feira, janeiro 05, 2007

O lixo

Ela tinha um dia para pensar em uma história. Às duas da manhã sua cestinha estava cheia de papéis amassados ou picotados. Por mais que tentasse, só pensava em números. Às sete da manhã, Zazé entrou no quarto enquanto ela estava no banheiro passando fio dental. Intrigada com tantos números, a faxineira os anotou na palma da mão e jogou o lixo na grande cesta da casa. A faxineira jogou no bicho, acertou de cabeça e nunca mais limpou o lixo de ninguém. Ela, entretanto, continua se achando o lixo em talento.



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quinta-feira, janeiro 04, 2007

17 de outubro

17/OUTUBRO/2006 - DISPARO CÓSMICO - Portal 818
Um evento de disparo cósmico acontecerá no dia 17 de outubro de 2006. Este é o começo dos disparos cósmicos, um dos muitos que deverão ocorrer até 2013. Os raios pulsantes de um raio de luz ultravioleta (UV) de uma das mais altas dimensões no universo cruzarão a rota da Terra e estaremos sob estes raios por 17 horas do nosso tempo, no dia 17/10. Esta emissão de raios de luz ressoa no chacra do coração. É de radiação fluorescente em natura e AZUL/MAGENTA em cor. Ela está acima do espectro de cores do nosso universo, no qual, nós da Terra, articulamos. Porém, pela natureza de nossas almas terão efeito sobre nós. O efeito será a ampliação de nossos pensamentos e emoções na intensidade de um milhão de vezes. Nossos pensamentos criam nossa realidade a partir do que focamos em pensamentos e desejos.
Nota por Elaine Paiva

Kiria focou na cura, no bem estar, na delicadeza, na gratidão. Entretanto, por mais que focasse em pensamentos positivos, longas náuseas embrulhavam seu estômago. Às 17:01 a dor foi tão forte que ela caiu por cima de um pé de romã. Seus olhos dilatavam. O disparo do raio intensificou-se um milhão de vezes perante sua pele rubra.

Para o bem da humanidade
, ela pensava.

Às 17:10 um velhinho que entregava pão nas residências, encontrou Kiria se sacudindo debaixo da árvore. Ele pegou a fruta do pé de romã com sua mão trêmula. O choque da fruta no chão fez Kiria se encolher.

# A humanidade é autodestrutiva, ele disse. E você não pertence aqui, vá embora.

Kiria queria ir, mas seu corpo ainda chacoalhava. O velhinho abriu a fruta, retirou os caroços e os jogou na cabeça clara de Kiria.

# Assim que se aprende. Você deverá atravessar agora.

Como ela podia ir se tinha tanto a fazer pela Humanidade? Haveria tantas guerras, será que ela não poderia aconselhar? Haveria tantos profetas mortos, será que ela não poderia evitar?

# Você não pode evitar a escolha do livre-arbítrio, o velhinho que chupava romã disse. Vá-te embora, demônio.

Enquanto o portal 818 fechava-se no dia 18 de outubro, o velhinho catava romãs em um chão avermelhado.



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quarta-feira, janeiro 03, 2007

Estrelas

Melinda queria ter os poros arrancados. Era como se estuprassem sua mente. Como se ela tivesse sido corrompida, agredida por um corpo alheio. As vozes daqueles que dormem na esquina eram insuportavelmente frias. Os ossos doíam.

Entretanto, naquela tarde ela ouviu um assobio, longo e insistente.

O mundo que se deixa para trás é feito de cores quentes, porém. E há aqueles que montam no camelo e saem pelas estrelas, sorrindo para o nada. Era nesses que ela se apoiava, pilares para mundos que não compreendemos. Ela os ajudava e tirava deles força para abrir os dedos e deixar escapar as águas de sua pele. Por mais que fosse dolorida a passagem, ainda havia mais poros a serem fechados.

Naquela tarde, Melinda abriu a janela de seu apartamento do segundo andar. Ouviu passos no piso de cima. Escutou as rodas de um doceiro ambulante pela rua. Lá embaixo um homem sorria, transmitindo um assobio, longo e insistente. Ele estava fazendo a passagem. Melinda não sentia mais os ossos doendo porque o homem tinha um assobio parecido com o que seu pai a ensinara dez anos antes.

Ele se foi, certo de seu caminho. Ela não mais ouviu vozes frias. No chão da sala, uma poça de sangue se formou, descendo de suas pernas longas e desengonçadas. O branco da sala foi tingido pela sangria.



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terça-feira, janeiro 02, 2007

O prisioneiro

André ficou preso em um quarto escuro dividido entre o bem e o mal. Aí ele tocou no interruptor, foi morar em um mundo azul e foi feliz para sempre. Dizem que debaixo d’água ninguém tem enjôo.



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segunda-feira, janeiro 01, 2007

O homem que não tinha carros

Yuh passou a vida toda andando de ônibus. Quando ganhou o carro em uma raspadinha, ele foi assaltado, mas recuperou os danos. Comprou outro, bateram nele. Recebeu o seguro e o carro foi levado por uma enchente na rua da prima.

Investiu em uma empresa de ônibus e mobiliou o interior dos veículos. Foram todos queimados em uma revolta guerrilheira na cidade carioca.

Mudou-se para uma ilha neohippie, perto de um suposto portal que vai dar lá no Chile. O único transporte é uma vaca gorda.



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Ventos Verdes
Sabedoria de Improviso
Páprica Doce
Escuridão