Terça-feira, Outubro 27, 2009
O coração de um atópico
Ela amava escondidinho um estrangeiro. Tinha vislumbres de seus lençóis, déjà vu do chão que pisava, consciência das cosquinhas que ele sentia nos braços. Algumas vezes ela via a chuva de carambolas que o atingia. Outras sabia que ele não seguia aquele caminho porque talvez ela não estivesse ali.
Ela sonhava e ele andarilhava. Atravessaram o mesmo chicote, banharam-se no mesmo mar. Mas ele pegou o avião do lado oeste e ela ficou do leste catando nuvens carregadas de chuva. Encheu meia dúzia de bolsas de plástico. Uns dizem que ele foi até o Irã e às vezes colhe acerolas importadas. Ela continua a sonhar, mas quando chega o tempo da colheita e sente o gosto da fruta, acorda e faz careta.
Alergia é pior que amor.
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Sábado, Outubro 24, 2009
A saga da família Aleluia
Saga: podia ser palavra de origem germânica associada aos povos do norte da Europa referente a relato literário de caráter épico. Ou uma deusa do Aesir da mitologia nórdica. Ou uma província japonesa. Uma obra de Érico Veríssimo. Um personagem da série Cavaleiros do Zodíaco ou uma banda canadense de rock progressivo.
Não importa. A saga havia começado em uma caixa de papelão. A família vivia no gélido território do sul do país com seus cabelos loiros e seus piolhos gordos. Daqueles que contornam a linha da palma da mão e que coçam a nuca. Dividiam pão, água quente e pedacinhos de marshmallow derretido. Nos tempos de garoa, talvez aquecesse o coração. Poderíamos dizer que conquistariam planíces com brados e urros e liderariam comunidades, mas o que seria a separação para restos de famílias desconhecidas? Conseguiram limpar móveis e datilografar mensagens psicografadas.
A família Aleluia cresceu, subiu nos bondes, desconstruiu trilhos. Alguns deram a volta pelas árvores, outros se enforcaram. Muitos dizem que alguns fantasmas perambulam pelo limbo. Outros que não existe tal coisa como maldição. Vivem me perguntando por onde andam e eu sempre digo que não sei. Mas vira e mexe um deles aparece só para dizer: Sabia que os marshmallows ainda derretem?
Alguns riem. Outros acham palhaçada. Ninguém diz Aleluia. Deixemos por isso mesmo.
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Quinta-feira, Outubro 08, 2009
As ervas
Ela era uma benzedeira do alto de um morro sem favela. O chão ainda possuía relva. Sua casa tinha paredes, mas cobertas de ervas-daninhas. Um dia, um bebê de olho azul foi visitá-la.
A mãe o obrigou a subir. 11 meses e andava perfeitamente. Quando chegou lá em cima, esbaforida e suada, a pequena criaturinha abriu os braços para a velha curandeira. Ela o recebeu e o espremeu entre os seios fartos. Ele sorriu. Ela o colocou de volta ao chão e foi buscar seus galhos preferidos.
Quando voltou, ele havia comido todas as ervas-daninhas e sorria com seus olhos azuis. A mãe? Estava rolando lá para baixo.
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Domingo, Setembro 27, 2009
O colorido
Ela olhou para o céu. Não sabia o que havia lá, mas o colorido piscava. Piscava como S.O.S de ET ou sinalizador de dimensão paralela. Quando seus olhos fecharam e abriram rapidamente, um pedaço de cravo com canela e maçã com maracujá despencou de uma nuvem. Ela caminhou até lá bem longe, bem atrás daquela parte ali de cima, passou o dedo no chão e disse:
- Hum, bem crocante.
Depois deu meia volta e foi contar suas pintinhas da barriga.
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Quinta-feira, Setembro 10, 2009
O animal que não queria ter pelos
Todos os dias ele acordava com vontade de raspar as pernas. Pelos de cá, cabelos de lá, moitas capilares perto dos vasos sanguíneos. Ele relutava porque era masculino pentelhos encravados.
Em um dia de intenso calor suburbano, pegou um prestobarbas e alisou um pedaço da perna. Começou pelas batatas e quando viu já estava no chão até os cabelinhos do dedão. Dizem que pelos são feitos para defender o organismo. Uma semana depois, ele estava com carrapato.
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Terça-feira, Agosto 25, 2009
Entre moedas de 50 centavos
Era um dia perfeito. O vento batia no que muitos chamavam de pântano, mas que era na verdade um lago poluído. Apesar das nuvens cinza chumbo, havia uma calmaria atmosférica. Acontecia sempre que uma fatalidade estava prestes a acontecer.
Murilo preparava o carro para trabalhar. Cuidadosamente separou os mp3s que fariam a trilha sonora para seu trajeto. Começaria com Nirvana, do The Cult. Depois passaria por Revolution e Everybody rules the world.
Acordava sempre de bom humor, sorrindo para o espelho brilhante graças ao álcool em gel também distribuído entre as vítimas de gripe suína. Apertou o gleid ultra mega cheiroso, ajeitou o banco, colocou as moedas de 50 centavos para possíveis pedintes no trânsito, pousou a maleta sobre o banco do carona e quando colocou seu pé na embreagem, ouviu o barulho. Tentou sorrir e esquecer, mas foi pego por uma fisgada. Gases intensos percorriam seu orifício anal. Dores espasmódicas furavam a pele de sua barriga. Tocava How I wish you were here.
Murilo abriu a porta de seu veículo pessoal e correu. Adentrou o banheiro com cheiro de Pato Pastilha Adesiva Sanitária. Lá fora o vento balançava uma planta típica de valão. O som ligado arriaria a bateria do carro. As horas seriam transportadas para outra dimensão e a partir dali, ele sempre chegaria atrasado.
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Domingo, Agosto 16, 2009
Flores de plástico não morrem
A recepcionista recebera um arranjo de flores pelo dia do orgasmo. Também educada, foi agradecer. Ele pediu desculpas por se tratar da pessoa errada.
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