Terça-feira, Novembro 17, 2009
A vida de Anna Li
Anna Li tinha os cabelos esvoaçantes. Desses que poderiam ser aproveitados por comercial de shampoo. O único problema é que eles voavam só para o lado direito, como um grande cone em direção ao céu. Era bonitinho que só se você fosse fotógrafo surrealista. Para uma vida comum, ele não era nada prático.
Certa vez cogitou atravessar a vida dentro de uma moldura. Talvez fosse válido passar por sua humanidade segurando um passarinho na mão esquerda, em cima de nuvens quase transparentes photoshopadas e seus cabelos pelo espaço. Entediou-se. Da outra vez, tentou colocar sua existência dentro de um calendário todo azul com letras brancas. Aguentou cinco dias apenas, depois rasgou os anos.
Anna Li não se importava em ter nascido assim. Nunca tinha torcicolos nem problemas com palidez. Cabelos pesavam e suas bochechas sempre estavam rosadas. Mas eles eram soltos demais, macios demais, sedosos que nem filmes de comédia romântica. Felicidade assim enjoava.
Podia ter cortado as madeixas, mas não conseguia. Era seu ganha pão. Todavia, durante o mês de janeiro de cada ano que passa ela faz tererê para que eles se quebrem e fiquem duros.
Dura um mês. Depois volta tudo novamente.
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Domingo, Novembro 08, 2009
Os defixadores
Gibran, Suy, Naui e Pacha corriam soltos pelas ruas de Maputo. Todos conheciam a senhora Yris Wan. Todos imploravam por canetas no aereporto local. Pacha era a mais fervorosa.
Eles eram uma família de contadores. E contadores na África tinham certas vantagens. Em dias santos, por exemplo, podiam inventar. Inventavam governos, anedotas, números. Mas o que Pacha adorava era inventar decalques de pele humana. Eles vinham em papel de pão, com barbantes crus e destinados a pessoas que não podiam se fixar. Havia naquela época, em toda parte do mundo, indivíduos que não podiam fixar em nada. Era como se fossem pólos não opostos de ímãs. Para essas pessoas, os decalques eram bem úteis.
Pacha adorava ver aquela aversão. Os corpos muitas vezes eram jogados para longe, caso tentassem se fixar, segurar. O toque mais longo já registrado durara dois segundos. Todavia, seu dono fora arremessado para tão distante que dizem que até hoje ainda se ouve o eco além mar. Os defixadores, como eram denominados, sonhavam. Sonhavam com abraços, luta corpo a corpo, sexo, comida com as mãos.
Pacha embrulhou cuidadosamente seu pacote. Era um decalque extra grande. Trazia um tipo de pele seca, mas muito bem hidratada com óleos e essências. Talvez durasse mais que dois segundos. Talvez não. Ela precisava de uma caneta. Enquanto seus irmãos abordavam turistas e estrangeiros, Pacha deu a volta pelo aeroporto com o embrulho debaixo do braço e roubou uma caneta de um guarda distraído. Se fosse pega, a senhora Yris Wan teria que levar a menina para o Machu Piccu e consequentemente nunca mais pisaria em terras do continente africano. Ela presenteara Pacha com uma raquete que matava mosquitos, então a menina não queria que isso acontecesse.
A pequena contadora escondeu seu objeto de escrita entre as pernas e correu. Às vezes, pinicava. Encontrou um defixador cabisbaixo logo atrás do mercado que vendia um tipo de carne não identificável. Ele a olhou com grandes olhos negros e brilhantes. Ela sorriu. Retirou de suas axilas suadas o pacote com sua marca de transpiração.
# O seu sonho, ela disse.
Ele pegou o embrulho, trêmulo. Rasgou o papel e arrebentou o barbante ligeiramente. O decalque adentrou em sua constituição física e ele ficou ali, tocando o resto de carne que o vendedor anteriormente jogara para os cães. Pacha retirou a caneta do meio das pernas e desenhou seu nariz na palma da mão.
Contou 5. 6. 7 segundos. O homem ascendeu como um foguete americano. Ninguém sabe se explodiu ou se continua a subir. Pacha tem certeza. Como diria Sandman, ‘Sonhos moldam o mundo.’
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Terça-feira, Outubro 27, 2009
O coração de um atópico
Ela amava escondidinho um estrangeiro. Tinha vislumbres de seus lençóis, déjà vu do chão que pisava, consciência das cosquinhas que ele sentia nos braços. Algumas vezes ela via a chuva de carambolas que o atingia. Outras sabia que ele não seguia aquele caminho porque talvez ela não estivesse ali.
Ela sonhava e ele andarilhava. Atravessaram o mesmo chicote, banharam-se no mesmo mar. Mas ele pegou o avião do lado oeste e ela ficou do leste catando nuvens carregadas de chuva. Encheu meia dúzia de bolsas de plástico. Uns dizem que ele foi até o Irã e às vezes colhe acerolas importadas. Ela continua a sonhar, mas quando chega o tempo da colheita e sente o gosto da fruta, acorda e faz careta.
Alergia é pior que amor.
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Sábado, Outubro 24, 2009
A saga da família Aleluia
Saga: podia ser palavra de origem germânica associada aos povos do norte da Europa referente a relato literário de caráter épico. Ou uma deusa do Aesir da mitologia nórdica. Ou uma província japonesa. Uma obra de Érico Veríssimo. Um personagem da série Cavaleiros do Zodíaco ou uma banda canadense de rock progressivo.
Não importa. A saga havia começado em uma caixa de papelão. A família vivia no gélido território do sul do país com seus cabelos loiros e seus piolhos gordos. Daqueles que contornam a linha da palma da mão e que coçam a nuca. Dividiam pão, água quente e pedacinhos de marshmallow derretido. Nos tempos de garoa, talvez aquecesse o coração. Poderíamos dizer que conquistariam planíces com brados e urros e liderariam comunidades, mas o que seria a separação para restos de famílias desconhecidas? Conseguiram limpar móveis e datilografar mensagens psicografadas.
A família Aleluia cresceu, subiu nos bondes, desconstruiu trilhos. Alguns deram a volta pelas árvores, outros se enforcaram. Muitos dizem que alguns fantasmas perambulam pelo limbo. Outros que não existe tal coisa como maldição. Vivem me perguntando por onde andam e eu sempre digo que não sei. Mas vira e mexe um deles aparece só para dizer: Sabia que os marshmallows ainda derretem?
Alguns riem. Outros acham palhaçada. Ninguém diz Aleluia. Deixemos por isso mesmo.
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Quinta-feira, Outubro 08, 2009
As ervas
Ela era uma benzedeira do alto de um morro sem favela. O chão ainda possuía relva. Sua casa tinha paredes, mas cobertas de ervas-daninhas. Um dia, um bebê de olho azul foi visitá-la.
A mãe o obrigou a subir. 11 meses e andava perfeitamente. Quando chegou lá em cima, esbaforida e suada, a pequena criaturinha abriu os braços para a velha curandeira. Ela o recebeu e o espremeu entre os seios fartos. Ele sorriu. Ela o colocou de volta ao chão e foi buscar seus galhos preferidos.
Quando voltou, ele havia comido todas as ervas-daninhas e sorria com seus olhos azuis. A mãe? Estava rolando lá para baixo.
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Domingo, Setembro 27, 2009
O colorido
Ela olhou para o céu. Não sabia o que havia lá, mas o colorido piscava. Piscava como S.O.S de ET ou sinalizador de dimensão paralela. Quando seus olhos fecharam e abriram rapidamente, um pedaço de cravo com canela e maçã com maracujá despencou de uma nuvem. Ela caminhou até lá bem longe, bem atrás daquela parte ali de cima, passou o dedo no chão e disse:
- Hum, bem crocante.
Depois deu meia volta e foi contar suas pintinhas da barriga.
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Quinta-feira, Setembro 10, 2009
O animal que não queria ter pelos
Todos os dias ele acordava com vontade de raspar as pernas. Pelos de cá, cabelos de lá, moitas capilares perto dos vasos sanguíneos. Ele relutava porque era masculino pentelhos encravados.
Em um dia de intenso calor suburbano, pegou um prestobarbas e alisou um pedaço da perna. Começou pelas batatas e quando viu já estava no chão até os cabelinhos do dedão. Dizem que pelos são feitos para defender o organismo. Uma semana depois, ele estava com carrapato.
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