sábado, setembro 30, 2006

Decalques de primavera

Cotias. Cotias atravessam o gramado. Mais pontes onde não existem travessias. Hebert leva debaixo do braço um caderno mágico. Suas palavras são wormtales imagéticos. Ele gostava de poder tocá-los, mas fazem parte de outra dimensão. Um espiral ventoso e ele se vê em cada sílaba pré-posta.

Não chove na outra dimensão. O vento processa seus pensamentos. Hebert é um receptor, mas precisa de um doador para o elo. As palavras continuam a prendê-lo perto do espiral. Ele vê a vida do ponto de onde partiu.

Cotias gordas atravessam o gramado. Elas pulam e se desmaterializam. Hebert engole a saliva rapidamente. Em sua direção a visão de seus sonhos: lisa, flutuante, coberta de borboletas, decalques de primavera. A taquicardia começa. A hipotermia o seduz. É o preço da carne, da pele, dos ossos.

O que inspiramos são almas alheias. O que expiramos são sopros de dúvidas. Ele se doou mesmo assim. Ouviu o estopim do metal ao longe. A paz o invadiu. Porém a paz não é feita para o homem porque ele criou o tédio. O tédio é o desejo suprido, o depois do fazer.

Hebert tentou se segurar. Se aquecer no Sol. Havia muito doce em seu coração. A visão lhe mostrou seus segredos.

Há música quando dormimos. Uma trilha sonora para a divagação de Hebert. Para que ele possa se perder em pensamentos altos. Para que ele dê senso ao mundo, para que ele infle idéias em seus sonhos.

Metade dos desejos são frutos de um criminoso entediado. Hebert esperou anos para alcançar as cotias. Perdeu todas as moedas. Os pêlos das sobrancelhas. A unha mindinha. As canetas importadas.

Descobriu no espiral o que faltava em seu vazio interior. Compartilhou novos segredos quando voltou. Não era mais o receptor, mas o elo. O invisível que nos liga. O homem que possui todas as palavras do mundo.



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sexta-feira, setembro 29, 2006

Sigo as estrelas ou o cigano?

Ser andarilho em século tecnológico é ser comparado a mendigo. Ser mendigo em algumas regiões é filosofia. Aqui, é sinônimo de cachaça. Talvez Gentileza fosse o rei cigano que distribuía flores debaixo do viaduto.

Kevin se inspirou em Forrest Gump. Todavia, havia esquecido de que não estava lutando contra o capitalismo, mas sim contra a extensão globalizada. As mentes eram rápidas. Os cálculos agitados. Perde-se a casa, mas não perde-se o computador. Seu nome era americano. Uma homenagem à Macaulay Culkin em Esqueceram de mim.

Passou uma menina pela rua e ele a ouviu dizendo que sentia calafrios só de pensar na possibilidade de depois de morta, ter que passar o resto da vida sem Internet. Ele ficou zonzo e ela criou a comunidade Só morro se céu tiver conexão banda larga.

Ele havia abdicado do PrintScreen e ela ficou feliz quando atingiu 15 mil membros. Ele pensou seguir o destino em busca de uma estrela de Davi. Mas antes precisava checar seu email. Comprou uma casquinha mista para ter acesso à Internet por 15 minutos.

Encontrou Jesus, best promoter ever. Teo Felipe indagou que fazer uma festa para 12 pessoas só com vinho e breadstick e ser lembrada por mais de 2000 mil anos não era para qualquer um.

Teve que concordar. Kevin plagiou a frase, não esquecendo de citar a referência e seguiu as estrelas.

Não encontrou nenhum Davi, mas bombou nas raves iradas da Europa.



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quinta-feira, setembro 28, 2006

A doadora

Precisava entupir as veias com gordura. Queria ter uma morte trágica para poder doar algum órgão. Seria humilhante morrer de velhice. Por mais que comesse, continuava magérrima. A prima da sobrinha da tia disse que era maldição por ela gostar de Stephen King.

Lis queria mesmo era morrer do coração. Ter um ataque fulminante ou beirar entre a vida e a morte para comprovar que não havia túnel de luz nenhuma. Passou a odiar Julia Roberts por causa de Linha Mortal.

Mas se contentava tendo um aneurisma, pois assim poderia fazer algum bem para a humanidade. Queria que tocassem Rain, da Madonna, em seu enterro.

Levantou da cama e discou Meuburgão. Seu namorado deitava nu de bruços.

Preciso dar o cu antes disso, pensou.

A dor a redimia. Estava pronta para o paraíso.



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quarta-feira, setembro 27, 2006

O carioca

Jaice está com sede. A garganta seca com a poluição. Não está acostumada a engolir tóxicos orais. Pede ajuda a Lori. Suburbano dos anos 80 que amarra as havaianas com arame fino. Ela é apresentada à água urbana.

O carioca ri. Jaice bota a boca no bebedouro e fica chupando.



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terça-feira, setembro 26, 2006

Tubo de Krasnikov

O bilhete em cima de sua cama.

“Por mais que tentemos congelar a passagem do tempo, como nas fotografias, ele foge de nós”.
Ass.: Daniell


Maia abriu desesperada a gaveta de sua escrivaninha. Revirou pastas, amassou papéis. A menina de cabelos enrolados olhou debaixo da cama, atrás do guarda-roupa, ao lado da penteadeira. Sentou derrotada na cama. Encharcada de suor, passou a mão na testa. Era muito cansativo se concentrar. Era cansativo pensar nas dívidas, no namoro instável, na política governamental. Ela não conseguia encontrar as lágrimas necessárias para o sopro do desespero.

A descoberta da fotografia representa um corte. Permite registrar vestígios duradouros e inequívocos de um ser humano. Fotomaníacos do mundo internauta expõem suas marcas morosas, esfregando na cara de outro humano a felicidade óbvia.

O que Maia controlava era o corte de suas fotografias. Olhou mais uma vez para o teto. Podia ver Bollywood. Podia ver Daniell sentado em frente ao computador desejando a sorte do mundo. Podia tocar as teias de aranha, congelar a atmosfera. Ela aprofundou-se. Estudou meticulosamente as estratégias. Se o desequilíbrio acontecesse seria culpa dela. E ninguém quer brincar com as conseqüências de outrem.

Precisava pensar. Onde teria arquivado? Onde teria seu cérebro escondido o que tanto desejava?

Lembrou do loop casual. O objeto auto-existente, aprisionado no espaço-tempo. Abriu a porta do guarda-roupa. Escondida e envolta a um lenço do Snoopy ali ela estava.

Amarelada pelo tempo a imagem não colorida. O atalho entre duas regiões longínquas. Seu tubo de Krasnikov.

Desamassou a fotografia. Os olhos não estavam congelados. Piscavam. Havia sido tirada quando descobriram matéria exótica. Quando construíram os tubos, quando havia energia negativa a balde na superfície. Embora a matéria constituinte do tubo de Krasnikov tenha densidades de energia positivas, o interior das suas paredes possui densidades de energia negativas extremamente elevadas. Era isso que buscava. O seu progresso interior. A sua glória momentânea.

O retrato preto e branco era sinal de crença no futuro. O olhar para a lente é uma visão de esperança. Ela deitou-se. Abraçou fortemente sua visão e fechou os olhos.

Maia abriu desesperada a gaveta de sua escrivaninha. Revirou pastas, amassou papéis. A menina de cabelos enrolados olhou debaixo da cama, atrás do guarda-roupa, ao lado da penteadeira. Sentou derrotada na cama. Encharcada de suor, passou a mão na testa. Era muito cansativo se concentrar. Era cansativo pensar nas dívidas, no namoro instável, na política governamental. Ela não conseguia encontrar as lágrimas necessárias para o sopro do desespero.

O bilhete não estava mais em cima de sua cama.




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segunda-feira, setembro 25, 2006

A casa azul

Na floresta de Denmak um jovem ateu cozinhou um alimento perecível. O garoto dentro da casa azul estremeceu. Lino gostava de ler dentro de casa. A luz precária do ambiente o ajudava na concentração. Na página 12, passou os dedos sobre as letras que formavam significados. “O que são os perigos da floresta e da pradaria comparados com os choques e conflitos diários do mundo civilizado?” Coçou o pulso.

Dentro da casa o relógio parado não marcava as horas. Era um apetrecho pós-moderno. Uma inutilidade de uma decoração de interiores. O jovem ateu cortou o dedo anelar do alimento perecível. Lino coçou o dedo médio.

“Enlace sua vítima no bulevar ou traspasse sua presa em florestas desconhecidas, não continua sendo o homem, aqui e lá, o mais perfeito de todos os predadores?”

O sangue do alimento perecível escorria pela mão do ateu. Ele esmagava a carne, fazendo marcas de dentes de plástico na superfície. A faca era Tramontina. O comercial influenciou a compra.

Dentro da casa azul, Lino ouviu o barulho. Era um farfalhar momentâneo, uma mistura de barulhos de gosma. Coçou a cabeça. Por um segundo o vulto passou à sua frente. Imaginou-se Tartufo.

O ateu jogou sal no alimento, mas antes o retalhou à base de vinagre e alho. Lambeu a face sanguínea.

Lino fechou o livro. Mas o vulto foi mais rápido. Cortou nas sombras a sombra de seus dedos. O uivo sombrio penetrou no azul da casa.

# Mas que merd...

Pipocavam em sua pele orifícios esfolados. O sangue saía do interior em uma graça de ferida. Do nivelamento liso e encantador da pele humana um emaranhado de pus formou-se. Junto, a coceira infindável. O ateu levou ao forno seu alimento perecível. Lino pereceu. Era catapora-zóster.



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sexta-feira, setembro 22, 2006

Neela

Havia uma menininha chamada Neela que acreditava muito em seu sonho. Ela o pendurava em pequenas notas de papel, fixadas por pregadores em uma corda de varal de plástico, no meio de seu quarto. Contava às vezes quando desejava que ele acontecesse rápido.

No início era novidade e todos ficaram encantados com a grandiosidade dele. Mas o tempo abraçou a gravidade e os papéis amarelaram. Neela tornou-se cética. Já não era mais uma pessoinha, mas alguém que precisava gritar no mundo seu lugar grandioso.

Gritou tanto que ficou rouca. Adquiriu uma alergia respiratória. O que ouviu foi seu eco. Andou descalça e sumiu na água.

Em casa, havia outra menininha que lia as notas envelhecidas. Tornou-se tão iluminada que teve uma idéia.

Colocou na caixa de correio todos aqueles pensamentos e os distribuiu em envelopes com selos. O menino da Irlanda do Norte transformou-os em uma primeira canção pós pop. O homem do centro histórico de Varsóvia usou como referência a suas pinturas. A senhora da cidade de Samarkand leu-os para seu neto quando passearam pelas ruínas. As mulheres de Jaipur anexaram as letras em seus saris. Uma menininha que vivia perto de um vulcão adormecido guardou-os dentro de uma caixa de fósforos para palitos grandes. Se encaixavam perfeitamente no que ela precisava. Foram guardados na galeria do templo que reúne valiosos tesouros humanos, com aplicações de mármore.

Neela se surpreenderia se os sentisse em Braille.

Há palavras privilegiadas que nos guiam e nos invertem. Há sentenças que nos regem e nos confundem. Há orações subordinadas e coordenadas por garotos que as decoram. Não é a gramática que nos atinge, não são as regras nem os prêmios que nos aclamam. São os planos dos sonhos de alguém na esquina.



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quinta-feira, setembro 21, 2006

Grãos de açúcar

“Eu existo para assistir ao fim do mundo”.

Cecília atravessou a ponte apressadamente. Levava debaixo de seu braço uma dúzia de ovos e pães de leite. O mar soprava sinos e os pensamentos soltos da cidade estavam desesperados para fugir. Ela só se apressava. Andava rapidamente porque ia chover. Se não chegasse logo em casa levaria uma bronca da tia.

O chão cinzento era refúgio para as formigas que conduziam grãos de açúcar até o jardim detrás da pedra. O ar livre percorria as fachadas azuis, os batentes de madeira e o sotaque português. A mulher que se debruça nas varandas do sono traz no bolso migalhas de pão para animais esvoaçantes.

Cecília se apressa. Aperta os passos. As batatas da perna doem, mas ela precisa chegar antes. A grande nuvem cinza forma-se devido ao choque de temperatura. A primeira chuva portuguesa. Cecília guarda os ovos debaixo da blusa, mas eles balançam ao longo de seus passos.

Ouve-se o palpitar de um bicho. A vida ferveu. A interpretação vital na água condensada acima dos cabelos lisos de Cecília. O vento suspirou. Ela correu. Dois metros para chegar à porta quando a água despenca do céu.

Seus sapatos deslizaram-se e os ovos penduraram-se no ar antes da queda. A gema misturou-se com os pães formando um bolo pré-cozido na garganta da menina. A saia ensopava enquanto que a terra absorvia o poder da água. A respiração é fugaz, violenta. Os grãos de açúcar foram guardados debaixo da terra.

Cecília senta no chão enquanto que se afoga entre as pedras e inspira vida dos que correm. No céu havia uma figura que sorrira. Ela limpa os olhos, mas a figura é fugitiva.

Sai do jardim das formigas um homem de bigodes e guarda-chuva de listras. Pega Cecília pelos cabelos. Ela não grita porque torrencialmente chove. É jogada em um local seco com um prato de maçãs cortadas. Enxugam suas lágrimas de dó. Ela é obrigada a beber um copo de água de flor de laranja.

Foi condenada bruxa. Havia sido tocada pelo mundo.



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quarta-feira, setembro 20, 2006

Desforçar o poder

Ela limpou a poeira da boca. Cuspiu saliva com pedaços de mosquito triturado. Já era tempo de verão. E no verão, mosquitos se suicidam dentro da boca de humanos. A probabilidade de um inseto cruzar o caminho de um humano é remota, mas toda pessoa já cuspira esse elemento vivo ainda uma vez na vida.

Aconteceu quando bocejou. Bocejou não para aspirar a beleza do momento veraneio, mas porque o sono era algo que importunava eventualmente.

Narjara trazia o fardo nas costas. Seu pai disse ao vê-la depois de nascer Você acredita no que inventa. Porque inventar era algo poderoso. E desde que o humano se conscientizou, apodrecia querendo isso. Para logo depois enjoar e pedir paz. Contraditório, sim. Mas elementar.

A invenção nasce com o desejo de ter o domínio. Controlar para não ser vítima do acaso. O inventor humano é um assassino de intenções livres, um captador de recursos que retira de multivisões uma verdade contida.

Era a função de Narjara. Acreditar em suas invenções que logo virariam verdades. Para alcançar o desejo era necessário inventar. Ela trazia no ventre das idéias o anátema do escritor. O querer pelas multidões, o encontrar-se na solidão. A manipulação das palavras era mais rápida do que a digitação escorregadia que seu cérebro processava. Ela precisava atingir multidões, cercá-las com suas palavras para que o maior número possível de seres pudesse acreditar em sua invenção.

Escreveu um email. Inventou os seis graus de separação. Espalhou-se pelas caixas de correio. Infiltrou-se na leitura diária de mensagens instantâneas. Pipocou em sites, pop-ups e flicks. Materializou-se, tornou-se o vício das mentes do século XXI. Encantou crianças que brigavam com os pais porque ainda não a possuíam. Atingiu a massa. Duplicou-se em santinhos. A luz tênue de seu discurso era o lema da globalização. Do pixel regurgitado nasceu o blog. E com ele, sua peregrinação.

Ser escritor é definitivamente uma maldição, pensou Lino ao tatear o escuro. Desde que aceitara reproduzir a história de Narjara o fardo o atingira. Acordou naquela manhã com os lençóis encharcados de palavras doces. Papéis picados jogados dentro de uma caixa de sapato. Não foi por mal. Prometo que isso não vai acontecer mais uma vez.

Era a história dela que o penetrava. Ele sabia que o contador de histórias inventa para que a atmosfera tediosa não crucifixe os pacifistas urbanos. Paz dura no máximo 45 dias. E foi em 45 dias que Narjara contou sua peregrinação. Em 45 horas, ela se transformou em um vírus em sua mente.

Agora Lino estava preso em um cubículo negro, com rabos de ratazana encostando em sua canela. Tudo porque aceitara reproduzir em palavras o que a menina de lentes de contato azul implorara. Em troca, ganhou uma trepada de quatro e a história mais espalhafatosa que já ouvira.


Narjara foi levada em 45 minutos. Palavras foram colocadas na boca de Lino. Afundou com as sílabas da pragmática. Teve a garganta escanhoada. Tentou escapar, mas inseriram um surrão de verbos pela orelha. Tonteou-se. No cubículo negro, viu-se enforcando a ratazana. Desforçar. Não conseguia mais. Os seis graus de separação fizeram-no reconhecer o bilhete. Narjara sorrira. Lino era só o leitor tateando no escuro. Ela não, tinha o poder.



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terça-feira, setembro 19, 2006

Maravilhas do Mundo

Olhos fechados. Cama fofa. Luz apagada. Um vulto:
# Tá dormindo?
# Não, tô me entregando para morrer.



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segunda-feira, setembro 18, 2006

Culinária italiana

Spoleto. Culinária italiana.

# Salada Saúde Spoleto, por favor.

Mariana malhava três vezes por semana pela manhã. Hebert era sedentário. Mariana via SportTV. Hebert Telecine Pipoca. Encontraram-se por acaso em uma noite de terça-feira no Spoleto do centro da cidade. Sentaram-se um de frente para o outro. Em uma hora terminaram suas refeições e se beijaram. Foram pedaços de brócolis para lá, pedaços de alface para cá. A boca humana é nojenta. Lembraram de Procurando Nemo. Continuaram a se beijar.

Brasileiro é direto, por isso a fama de doadores.

Em 24 horas foram para a cama. Fizeram o número 1, número 2, número 3 e número 4. Em 48 horas já sabiam dos defeitos. Em um mês a primeira briga. Esperançosos, em um ano o casamento. Em dois anos, mais brigas.

Em três anos, Hebert encontrou Ana Maria em uma terça-feira de setembro. Conversaram por três horas. Ele não a beijou.

Em dois meses se divorciou e trocou escovas com Ana Maria.

# Alma gêmea, ele disse. Sabe fazer comida italiana.



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sexta-feira, setembro 15, 2006

Torta baby

Lecadô doceria. Pingo e Neto torrando seus salários.

PINGO: Compre sua torta por um preço especial. R$ 24,90. Tá dada, Neto.

NETO: Mas só vai ter nós três lá, Pingo.

PINGO: Será que a Carol vai gostar?

NETO: Jura que ela topou?

PINGO: Tô falando, meu. Ela é do caralho. Literalmente. Mente aberta. Aberta a experiências.

NETO: E se a Sabrina descobrir?

PINGO: Desencana. Sabrina continua baiana?

NETO: Sim, só por trás. Virgem até o casamento.

PINGO: Meu, tu é sortudo! Conheço mil caras que dariam tudo por uma comida de trás. As patroas não deixam. Fio terra só na geladeira da cozinha.

NETO: Não tá dando certo, meu. Eu tenho nojo.

PINGO: Nojo? Tu não é homem não, porra?

NETO: Ela gosta de esfregar ele até esfolar.

PINGO: Caracoles, meu. Tu juntou com um travesti.

NETO: Argh. Deixa de ser preconceituoso. Esfolar. Literalmente.

PINGO: Como assim?

NETO: Mete meu pau em aparelhos sadomasoquistas.

PINGO: Meu, mas ela não é virgem?

NETO: Fantasia dela.

PINGO: Você tirou a sorte grande, cara! E tá reclamando!

NETO: Ela é estranha.

PINGO: A mulher é insaciável!

NETO: Ela gosta de evacuar em cima de mim. Diz que é para marcar território.

PINGO (gargalhando) Sexo animal!

NETO: Você ri? Isso é triste!

PINGO: Torta baby, R$ 18,90. Vamos? Preço por tempo ilimitado.

NETO: Melhor, né? Ei, Pingo. Você acha que a Carol vai gostar?

PINGO: Do esfoladinho? Ela vai amar, amigo. Amar. E depois dizem que as virgens são santas.



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quinta-feira, setembro 14, 2006

Unno & Due

Unno & Due. Sanduíches na baguete. Conversa de padaria.

Amine mastiga um doubleXtudo. Baratas cascudas tentam agarrar o pão doce, mas o atendente as esmaga.

AMINE: Elas deveriam ser gêmeas.

Rudolfo estava de dieta, comia uma cavaca com chá de saquinho.

RUDOLFO: O quê?

AMINE: As cascadinhas, Ru. Animais pré-históricos.

RUDOLFO: Chega dessas histórias de barata, Amine.

AMINE: Muito Kafka, eu sei.

RUDOLFO: Ou você fala de barata ou de formiga ou de insetos asquerosos. Não tem outro assunto?

AMINE: Sim, sexo. Não trepo com meu namorado há dois meses.

RUDOLFO: Dois meses?

AMINE: Ai, Ru. Eu to enjoada dele, mas ele é tão bonzinho, tão fofinho, tão inho que me irrita!

RUDOLFO: Já tentou pegar mulher?

AMINE: Já.

RUDOLFO: E?

AMINE: E também me dá tédio.

RUDOLFO: Já saiu com outro cara?

AMINE: Já.

RUDOLFO: E?

AMINE: Também me dá tédio. O cara meio que broxou. Eu sou tão feia assim?

RUDOLFO: Ah, Amine! Você é linda! Desbundada, mas linda!

AMINE: Mas você é gay, não conta.

RUDOLFO: Feriu meus sentimentos. O que você quer, querida?

AMINE: Eu quero ter o maior orgasmo do mundo. Viver em êxtase.

RUDOLFO: Mas isso não é vida, mulher. Nem Hollywood conseguiu um filme assim.

AMINE: Eu só preciso de um homem inteligente, bonito e engraçado. Ru, você quer trepar comigo?

RUDOLFO: Mas querida, eu sou gay.

AMINE: É só para ver se eu sou boa de cama. Você sabe, saber se sou rápida demais, lenta demais...

RUDOLFO: Mas eu não serviria. Sou seu amigo.

AMINE: Homens sempre dizem que somos maravilhosas, mesmo com aquelas caras de tédio. E as mulheres são muito mela cueca.

RUDOLFO: Conclusão: você é assexuada, Amine.

AMINE: Não, chega de tocar uma. Eu preciso de uma alma gêmea que trepa bem.

Rudolfo limpando os lábios com o guardanapo. Sininho da padaria toca.

RUDOLFO: Serve aquela que entrou ali?



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quarta-feira, setembro 13, 2006

3 décadas de Cassandra

Nos anos 80, eram os cabelos cachorrona, com a franja cobrindo a sobrancelha e revoltos ao ar livre.

Nos anos 90, foram as jaquetas Hard Rock Café.

Nos anos 2000, vieram as chapinhas, escovas progressivas e depilação a laser. Cassandra se entupia de pizza e lanche nos Giraffas. Qualquer coisa tinha drenagem linfática.

O que três décadas fizeram com essa mulher é de quebrar o queixo. Michael Jackson era pinto. Até o lóbulo da orelha foi mexido. Dizem que foram 30 operações, mas eu ainda acho pouco.

Um dia, Cassandra cansou-se do consumismo. Doou todos os seus bens. Sua família dizia que eram influências budistas, mas há rumores de que ela montou um camping em Trindade e no inverno vai para Visconde de Mauá. Certa vez ela veio com uma história de duendes.

# Aí, Fantinho. Toda manhã eu abria a porta da frente da casa e a de trás. O pequeno saía do jardim, atravessava a casa e desaparecia. Era uma experiência maravilhosa...

# Você cria cogumelos? eu perguntei.

Dia desses um amigo me disse que ela tinha falecido.

# Pois é, Fantinho. Eu tava na Vivenda do Camarão e Cassandra tava na pedra. De repente a mulher mergulhou e sumiu! A aldeia tá de luto! Uns fazem oferendas, há histórias de raptos por aquela região também.

# Sei, eu disse. Gaguinho era conhecido pela teoria de que Jesus Cristo era alienígena. Ele passava os feriados circulando passagens na Bíblia que descreviam objetos voadores não-identificáveis. Era comprador assíduo da revista UFOS. Ou seja, um mês depois recebi um email de Cassandra em uma praia de nudismo. Ou os ets estavam de férias ou meu velho pc tinha sido invadido por vírus do além.

Ela ressuscitava de vez em quando. O engraçado é que ela sempre tinha o poder de me achar. Me ganhava só com a risada. Sou da teoria de que as mulheres precisam ser divertidas. Minha mulher me expulsou de casa porque eu passei 48 horas rindo com Cassandra no banheiro. Loló, seu cão, adorava manteiga de amendoim. Ficamos agarrados nele. Perdi um casamento, mas as risadas ficarão para sempre.

Cassandra foi para São Tomé das Letras. Eu fiquei com Loló. De vez em quando ela manda cartas. Finas, 1 centavo, carta social. Meu melhor livro de comédia.

Loló continua a apreciar manteiga. Isso nem chega mais perto do meu corpo. Mas de vez em quando eu fumo um beck para ativar a aura. Eu rio daqui e ela de lá.



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terça-feira, setembro 12, 2006

O herói do check-in

Era um herói atípico. Camisa branca, mochila preta, óculos escuros e um bronzeado do Recreio. Nem feio nem bonito. Não sabia andar de moto e era o único que não tinha celular na cidade. Trabalhava na Gol. Check-in. Viciado em Baton Garoto, nunca foi à Petrópolis.

O único poder encontrado era sua sensibilidade auditiva. Isso trazia insônia para Maurice. Acordava altas horas da noite ouvindo choros, orações e súplicas. A única dor do mundo vinha das doenças incuráveis. Doenças da alma que corrompiam o corpo. Se houvesse paz no mundo, as pessoas desapareceriam. Não sabia do porquê do humano ser propenso à violência. Vagava pensando em soluções.

Besteira, pensou. Não sou engenheiro de produção.

Um dia, em sua folga, foi ao MAC. Atravessou a baía de barca. Havia até sistema televisivo interno.

O que move o mundo são as cifras, indagou para seu eu interior. O mercado ao redor era distribuído de forma irregular. Ambulantes disputavam a tapas trocados globalizados.

Havia salva-vidas suficientes para uma saída de emergência? Sempre tivera curiosidade de saber. Santander Banespa sorria no topo do prédio.

O problema de viver em uma nação pluralista é que União é só sinônimo de açúcar. Pessoas esbarravam em Maurice não-preocupadas com o lixo atômico ou o superaquecimento global. Todo mundo dormiu no World Jump Day.

Se estava calor, era culpa do governo. Se estava frio, era culpa do Senado. No meio do ano eleitoral, as pessoas continuavam a jogar papel no chão, a balançar a bandeira do candidato por 80 reais mensais.

Maurice tinha nos ouvidos todas as queixas existenciais. Precisa de uma noite de sono normal. 8 horas seguidas, por favor, pensou.

Foi ao otorrinolaringologista.

# Seu problema é crônico, meu jovem, disse o médico depois de guardar o cheque que seria descontado dia seguinte para pagar o cartão Leader da esposa.

# E qual a medicação?

# Sinto lhe dizer, meu jovem. Mas seu teor é incurável.

Nossa, pensou. O que é uma martelada para quem já tem os pés pregados no chão mesmo?

# Mas... disse o doutor sussurrando. Posso receitar uma tarja preta. Você deve usar no máximo uma vez por semana.

# Obrigado, disse Maurice.

Atravessou a baía de barca novamente. Santander Banespa continuava a vista, mesmo à noite.

Dentro da balsa, milhares de vozes futucavam seu cérebro. Maurice abriu a caixa comprada. O comprimido latejava em sua mão.

Uma boa noite de sono, bravejou mentalmente.

Queria salvar o mundo, sim, era verdade. Queria que o país tivesse uma tradição histórica, sim, era verdade. Queria tirar o lixo do mundo e reciclá-lo, era verdade. Queria engordar as crianças da África, sim, era verdade. Entretanto, a última imagem formada foi a de um avião da Gol sobrevoando suas pálpebras.



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segunda-feira, setembro 11, 2006

Taedium Vitae

Dia de paz. Conversa casual. Choppimpé.

Magali: Não é ruim, mas também não é tão bom, é? Sinceramente: mesmo sabendo da tradição, não te parece uma merda?”
Thiago: Não. Skol é melhor.
Magali: Isso é uma coisa idiota que os cariocas colocaram na cabeça. Não desce redondo, desce azedando tudo.
Thiago: É porque você é mulher. É a melhor.
Magali: Você nem é carioca.
Thiago: Nem você.
Magali: Sou sim, nasci em São Cristóvão.
Thiago: Eu nasci em Campo Grande. Carioquíssimo. Por isso que bebo Skol.
Magali (azedando na Skol): Arghhhh. Impossível. Prefiro Antártica. É por isso que os turistas vêm ao Rio com seguro.
Thiago: Você é fresca mesmo.
Magali: Como você pode puxar saco de uma cidade que você nem mora?
Thiago: Magali, é um estado de espírito. É só você sentar na praia do Leblon que vão achar que você é turista. Ninguém se importa de onde você é, desde que traga no peito o emblema carioquês.
Magali (bebendo mais um gole): Você vai no Mate com Angu?
Thiago: Não, tenho tv a cabo agora.
Magali: Ué, mas você não disse que era muito caro?
Thiago: A gato net passou lá na rua. 25 contos, ESPN e cartoon. Estamos todos felizes.
Magali: Você é um ladrão. Pirataria é crime.
Thiago: Diga isso pro Capitão Gancho.
Magali (bebendo o terceiro copo de Skol): Os mineiros estão invadindo o planeta.
Thiago: Deixa eles. Não tem praia lá mesmo.
Magali: Mas eles são mais educados que nós.
Thiago: Ô, Magali. Você tirou o dia para malhar Judas?
Magali: Eu não sei porquê desse patriotismo hipócrita.
Thiago: Ah! Deixa de ser tão cult.
Magali (bebendo o quarto copo de Skol): Para entender o mundo basta ter amigos!
Thiago: Você tem algum referencial para essa afirmativa?
Magali: Ué? Você não é meu amigo? Agora eu entendi!
Thiago (sorrindo): Mesmo?
Magali (bebendo o quinto copo de Skol): Tá descendo redondo, cara.
Thiago (bebendo o vigésimo copo de Skol): Magali?
Magali (bebendo o sexto copo de Skol): Sim?
Thiago: 500 poodles matam um leão?



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sexta-feira, setembro 08, 2006

O guardião

Há certas coisas na vida que devemos dar um basta. Basta nas pessoas que preferem Nescau a Toddy, Pringles a Ruffles, Piraquê a Qualy, Guaraná Dolly a Antártica, chocolate branco a chocolate preto. Mas há certos indivíduos que teimam em fazer coisas simples. O basta vale para a complexidade. Esses indivíduos são chamados custódios. Aqueles que guardam, defendem ou protegem.

Custódio Silva Pintto era um operário de máquina de fotocópias. Não trabalhava para Xerox. Seu chefe dava um basta para o símbolo absoluto de fotocópia no Brasil. Para ele, somente a Delta, Nashua e Canon trariam aquele cheiro para sua loja. Cheiro de História. Seu chefe se considerava um fazedor de História.

Custódio era responsável pela organização do material fotocopiado, atendimento aos clientes e a manutenção e compra de produtos não-originais. Competitividade no mercado.

Todos os dias, antes de abrir a loja, o chefe repetia seu mantro sagrado:
# Fotocópia não é consumo; é arroz com feijão, artigo de primeira necessidade. Devo alimentar as pessoas o mais rápido possível.

Os funcionários eram obrigados a repetir as mesmas frases e a bater palmas, dando três pulinhos e rodopiando com alguns textos fotocopiados. Seu chefe se dizia responsável pela nova ordem cultural. Seu trabalho era um meio de inclusão e democratização do conhecimento. Custava só 10 centavos por página.

Custódio também se sentia responsável, mas o que mais lhe encantou foi o banheiro do estabelecimento. Ele saiu da comunidade Não consigo cagar fora de casa porque a privada de seu trabalho era mais confortável do que de sua própria casa. Ao som das máquinas de produção, ele contribuia para o adubo do mundo. Antes de todos chegarem ele idolatrava as paredes limpas de Omo Multiação. Adorava tomar banho ali. Tinha cheiro de perdição humana.

O guardião, defensor e protetor Custódio Pintto tinha uma teoria. E ninguém dava um basta nele. Segundo o funcionário, as máquinas de fotocópias ressecavam o bulbo capilar. E a verdade era que todos os funcionários tinham cabelos ressecados.

# Deve ser o ar-condicionado, disse certa vez Agostinho.

# Não, é a impureza das tintas. Nossos cabelos estão quimicamente transformados, retrucou Custódio.

Ninguém riu. Custódio era o protetor. No fundo, era uma verdade estranha.

Em prol da regeneração dos fios, Custódio estipulou horários de tratamento. Seu chefe achava aquilo uma palhaçada, mas a verdade é que a produção da loja aumentou drasticamente com a revitalização dos fios dos funcionários.

Ao meio-dia, o estabelecimento fechava e Custódio combinava Tutano de Boi com uma película extra-isolante capaz de impedir o ressecamento e deixar os cabelos super fáceis de pentear, protegendo a cor e revigorando a extensão do fio.

Depois da higienização, Custódio evacuava em paz.



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quinta-feira, setembro 07, 2006

A menina dos cachos

22 de outubro de 2006. A menina dos cachinhos foi encontrada vagando debaixo da passagem que leva ao Rio Sul, em Botafogo. Testemunhas relatam que o reconhecimento foi traumático. A menina está viva, mas seu estado é assustador.

Lisméia foi uma menina criada pela tia-avó. Seus pais a abandonaram em 22 de outubro de 1996. Sumiram do mapa, mas foram encontrados mudos 5 anos depois, com um cachinho na mão no sul da Indonésia.

Sua tia-avó ficara surpresa com a criança em sua porta, porque era fato que teria glaucoma no futuro. E quem entregaria uma criança a uma pessoa quase cega?

O dinheiro que a tia havia reservado para a cirurgia foi gasto no cuidar da menina. Lisméia tinha os cachos mais perfeitos que a mulher havia tocado. Muitas vezes acordava com a presença de Lisméia no quarto e os cachos já estavam prontos. Eles começaram a se formar ainda bebê e desde então eram metricamente alinhados.

As mãos da tia-avó já estavam enrugadas e a mesma enxergava em sombras. Lisméia acordava docemente todas as manhães com um espelho na mão admirando a cabeleira de cachos. Era démodé para a época, todas as pessoas riam, mas era uma felicidade interna que a tia-avó começava a estranhar.

# Lisméia, você não acha melhor cortar esses cachos? Você não é mais uma criança.

O olhar da menina petrificou a tia-avó, que mesmo sem enxergar, estremeceu.

# Tudo bem, então, Lis.

O alinhamento dos cabelos incomodava a tia. A perfeição era absurdamente estranha. À noite, depois da janta, a tia pegou escondido a tesoura afiada e se direcionou ao quarto da sobrinha-neta. A menina estava sentada, lendo um livro. Calmamente a tia apontou a tesoura para a cabeleira.

# Não, tia Leia.

A mão da senhora balançou, mas a tesoura não cortou os cabelos. Quanto mais forte ela tentava picotá-los, mais perfeitos eles ficavam. A senhora suava. Lisméia permanecia rígida. A tia desistiu e foi dormir. A menina passou a mão na capa do livro e sussurrou:

# Por favor, não. Ela quer meu bem.

O zumzum pairou no ar. Lisméia fechou os olhos. Respirou profundamente. Os cachos começaram a se transformar em figuras anelares amarelas. Desciam pelo rosto em movimentos de serpente, mas eram finos demais. A menina olhou-se no espelho. Estava careca.

Abraçou o livro enquanto que os gritos sufocados de sua tia eram evocados no quarto ao lado. Lisméia correu. Pegou a tesoura. Abriu a porta da cozinha. Desceu as escadas do décimo terceiro andar. Sentiu-se livre por 15 minutos. Leve, como um animal sem penugem, um cão que acabara de ser tosado. Caminhou lentamente enquanto que o vento batia em sua cabeça nua.

Eu posso fugir. Usar chapéu. Ser budista.

Iria para Copacabana. Pediria dinheiro. Compraria uma passagem para outro país, depois iria para o aeroporto e partiria. Portugal talvez, na África também se falava português.

Atravessou a passagem subterrânea de Botafogo com pensamentos internacionais. Congelou quando ouviu o zumzum pairar no ar. Havia uma sombra enorme de sua pessoa nas paredes da passagem.

Ela viu quando eles entraram novamente em sua cabeça. Arrastaram-se pelas paredes como minhocas famintas e encaixaram-se perfeitamente em seu couro cabeludo. Perfeitamente alinhados.

O sonho se desfez. A mão da menina fez o mesmo movimento que antes a tia avó havia realizado. Lisméia tirou a tesoura do bolso. A mão balançava. Pingava horrores. O cheiro de ameaça fez com que os cachos se prendessem mais ao couro cabeludo. Eram como grandes presilhas de rabo de cavalo. Estava sozinha. A menina perfurou seus olhos. Atacava a íris com toda a força e enquanto desmaiava de dor, seus pensamentos foram invadidos pela força da permanência dos cachos.

Ela não queria mais vê-los, mas a energia de senti-los foi mais forte.



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quarta-feira, setembro 06, 2006

O dia mais frio do mundo

Era o dia mais frio do mundo. Ao invés de bafos de fumaça, bocas congeladas. As pessoas daquela região não estavam acostumadas com a geada. Não tinham aquecedores. Bruninho se encolhia debaixo do cobertor de Power Rangers. Júlio, seu pai, havia cortado a mangueira para aquecer a casa. Estradas interditadas. Neve em um país tropical. As televisões espirituais anunciavam o fim do mundo. O Senado, caos econômico. Para a população, era mais uma primavera fria.

Júlio havia colocado mais um tronco na fogueira no meio da sala quando ouviu o grito do filho.

# Pai! Pai!

Júlio havia sido policial, mas há dois meses estava preso em sua rua. Acostumado a cuidar dos outros, a aflição de seu filho o incomodava. As pessoas cuidavam umas das outras. As árvores estavam acabando ou morrendo secas. No quarto, todos os brinquedos de madeira já haviam sido queimados. Bruninho segurava um velho Pooh.

# Ela voltou, pai.

# Quem?

# A moça da água.

# Só eu e você aqui, Bruno.

Júlio percebeu que as mãos de seu filho congelavam. Usou todos os tecidos encontrados na casa, mas nada aquecia Bruninho em certa hora da noite. O menino tremia, batendo queixo.

# Vou levar mais um brinquedo, Bruno.

Ia arrancar o velho Pooh da mão do garoto, mas ele uivou. Ainda batendo queixo:

# 20 verões, três mil primaveras frias. A moça da água disse. Ela vai me levar, pai. Você não vai conseguir me aquecer.

Júlio estremeceu. Do lado de fora da janela, um vulto passou esbranquecido.

# Mas o que...

Bruninho agarrou a mão do pai.

# O Pooh precisa de mel.

Júlio estava cansado, com certeza. Obedeceu a criança. Foi até a cozinha, pegou um pote e melou a boca do boneco. Quando voltou, seu filho estava debaixo da cama.

# Eu não quero ir, pai.

Seu pai o colocou no colo.

# Você não vai a lugar nenhum.

# Não abra a porta. Se ela entrar, terei que ir.

Júlio pegou o menino nos braços. Se não fosse lá fora em uma hora, o fogo terminaria. Duas batidas fortes na porta. O menino estremeceu mais ainda. O pai o ninou nos braços mais perto do fogo.

# Não abra a porta. Se ela entrar, terei que ir.

As batidas incessantes duraram mais de meia-hora. Depois o intervalo entre elas foi maior. A cada barulho na porta de madeira, um gemido do menino. O fogo acabava.

O pai desesperado cantou canções de ninar. Mas as batidas continuaram até o fim do fogo.



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terça-feira, setembro 05, 2006

Moby

Deitou-se em seu quarto. Pernas abertas, esticadas, braços em forma de V. No rádio, de forma onírica, Why does my heart beat so fast.

Ela inspirou de uma só vez todo o oxigênio do quarto. Prendeu-o por um minuto e meio. Lentamente soltou-o dos pulmões.

BUM.

Arrancou o ar ferozmente pela boca. BUM. BUM. Ficou tonta, olhos fechados. BUM. BUM. BUM. Desprendeu-se. Viu seu corpo. Pulou a janela. O corpo ainda estava lá. Foi até o boteco da esquina e cheirou uma pinga. O etéreo voltou rapidamente à carne.

BUM. BUM. BUM. BUM.

É, ainda não estou preparada.



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segunda-feira, setembro 04, 2006

O banheiro

Abriu a porta do espelho do banheiro. Estava atrasado. Todavia, a fixação de Caio por seus dentes consumia seu tempo matinal. Havia usado aparelho por 1 ano para endireitar um canino posterior. Religiosamente escovava os dentes por 10 minutos. Passava fio dental extra fino 20 vezes. Listerine por mais de 5 minutos, até que suas bochechas estivessem dormentes. Teria úlcera nervosa daqui a dois anos, com certeza.

O banheiro era seu lugar sagrado. Sua pia era estrategicamente um santuário para sua saúde oral. Mastigava os alimentos 30 vezes. Sua boca era uma centrífuga. Seus colegas de trabalho da loja de seguros odiavam almoçar com ele. Ele sempre dizia que dentes bem cuidados compõem o sorriso, servindo de suporte aos músculos faciais, contribuindo para a expressão facial que o fazia vender mais na loja. Fluorizava seus dentes em casa. Tinha um kit semanal. Nunca teve placa bacteriana até aquele dia.

Algo estava irregular no cômodo. Observou o banheiro durante sua escovação. Os minutos passavam atrasando mais ainda sua ida a seu emprego. O desorizador líquido Harpic exalava seu perfume menta. Ainda com a escova na boca jogou Bom Ar no recinto.
Algo ainda está estranho.

Ao mesmo tempo em que precisava ir, sabia que algo ameaçava sua segurança ortodôntica. Vasculhou o banheiro de cabo a rabo. Abriu as gavetas, olhou todas as toalhas. O papel Neve estava lá. A pasta de dente começava a ressecar seus lábios. Um pedaço havia petrificado na bochecha.

Cuspiu. Foi aí que sua visão dentífrica percebeu o barulho.
Não pode ser. Impossível.

Caio precisava terminar sua escovação, mas sua vida dependia daquilo. Continuou com a escova dentro da boca. Olhou-se no espelho. Uma gota de suor escorria pelo nariz. Sua sensibilidade dentária o fez levar a mão à boca.
Meu Deus, não pode ser. Por favor, não.

Um barulho vinha da descarga. Como cigarras em pleno verão, o barulho alcançava um teor auditivo que só Caio percebia. Ele havia lido na www.dentes.info que o dente humano depois de totalmente erupcionado não se recupera do desgaste natural, ao contrário dos dentes de alguns animais, como os roedores, que estão em contínuo crescimento. Tremeu. Era seu trabalho de uma vida toda.

Mas se ele não chegasse perto poderia contaminar seu santuário higiênico. Um cheiro de mau hálito pairou no ar. Ele borrificou o ambiente novamente, mas o hálito continuava em suas narinas. Deu passos lentos em direção a latrina. Estremeceu. Um frio subiu à sua espinha dorsal. Elas estavam nadando felizes, subindo e descendo na água que antes havia sido purificada por Caio. A película de bactérias orais se multiplicava. Caio se esquivou, mas era tarde. A porta do banheiro não abriu. O basculante fechou. As bactérias da placa tomaram proporções alarmantes.
Não rija.

A cárie dentária e as doenças das gengivas o atingiram em cheio. Desmaiou. Nunca havia sentido dor naquela região. Sua saliva contaminava os dentes. A escova caiu latrina abaixo. Tentou agarrá-la, mas era tarde. Os cisos nasceram. Ele tinha 32 dentes.



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sexta-feira, setembro 01, 2006

Rave de Botafogo

O matemático apressou seus passos. Trazia debaixo do braço sua tese de doutorado. Estava aproveitando seus últimos dias de anonimato apreciando a noite da cidade urbana. Sua vida cheirava à metrópole.

# A vida é uma grande rave importada! - gritou para o eco, enquanto que vagava aos pulos, ouvindo música em seu aparelhinho de camelô.

Dançou sozinho no meio dos mendigos. Passou na Bunker só para comprar uma bala de ecstasy e sair agitando-se pelas ruas que cercavam sua casa. Ironicamente pegou uma com um desenho de borboleta. Pulou dançando alegremente entre a rua da Passagem e a Álvaro Ramos. A droga do amor logo começou a fazer efeito. O asfalto estava mais perto. Os prédios se fechavam formando paredes.

# Eu quebrei a teoria do caos! - ele cantava ao som de Massive Attack.

# Não há borboletas! Não há tufões!

Amanhã era o dia de apresentar a conclusão de seu trabalho. Sua camisa estava encharcada de suor. Seu coração batia rapidamente.

Preciso de água.

O homem de 45 anos bateu de porta em porta pedindo água. Ninguém o atendia. Ninguém atende um homem suado à meia-noite no Rio de Janeiro.

Bateu na porta da Band. Seu corpo estava desidratando. O porteiro jogou uma garrafa para ele.

Bebeu rapidamente e ao colocar o objeto de plástico no lixo, foi rendido e colocado dentro de um carro. Espancado, deu a senha de seu cartão. O seqüestro-relâmpago durou 40 minutos. Junto com sua carteira, levaram sua tese. O seqüestrador com uma escopeta nova ainda riu, reluzindo um sorriso metálico cheirando a novo:

# Desde ontem que estamos com sorte. Valeu, bundão!

O matemático chorou. Na carteira, estava seu pendrive com todo seu trabalho de 2 anos.

BRASÍLIA. 48 horas antes.

O filho do matemático dá 200 notas de 100 para um homem barbudo:

# Você acredita na teoria do caos, Alexandre?

# Que isso, doutor?

# De que o bater das asas de uma borboleta em um ponto da Terra pode provocar um vendaval no outro extremo da Terra em semanas.

# Claro que não, doutor.

# Um seguidor de meu pai, então. - riu sozinho. Você sabe que esse dinheiro tem que ser usado somente para a parada do Rio, né?

# Sim, claro.

# Só drogas de amor. Nada de branco.

# Sim.

# Ao invés de coração, peça para desenharem uma borboleta dessa vez.

# Ok, doutor.

# Use o dinheiro só para isso.

# Claro, doutor - riu o homem barbudo, reluzindo um sorriso metálico cheirando a novo.



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