quinta-feira, janeiro 15, 2009

Os meninos de Saufilin

Na cidade de Saufilin viviam dois meninos que sabiam feitiços de cor. Eles os decoravam e os recitavam perto da agência do correio, aquela azul que você viu pintada perto do quadro de Van Gogh. Eles tinham anos e por esses anos, até hoje não sei quantos. Mas os meninos eram muito disciplinados. Acordavam com palavras e frases na boca, com sílabas rimadas, com encantamentos métricos. Alguns daquela cidade diziam que eles eram descendentes das crianças que viram Fátima, mas acredito que não.

Os meninos eram somente meninos. A magia os enlaçou ainda no berço, quando um andarilho jogou no carrinho deles um livro velho, sem capa, sobre magias para meninos. Aprenderam a ler por causa dessa encadernação. Tinham resposta para tudo, desde os cavalos marinhos que percorriam os mares até os tsunamis do Oriente Médio no século 22.

Um deles era filho de um negro do Quênia com uma branca do Kansas. O outro era dono de King, o periquito belga. O dono do periquito adorava andar de frente para trás. Foi em uma dessas andanças que os dois meninos encontraram perto do campo de tulipas um outro menino com dentes de elefante. Eles se encararam por alguns milésimos de segundos enquanto o periquito batia suas asas assustado.

Os meninos achavam que tinham encontrado o mago da Polinésia e entoaram seus encantamentos métricos. Enquanto os dentes de elefante batiam uns de encontro com outros, o livro que o filho do negro do Quênia com a branca do Kansas carregava escorregou de seus dedos. Foi agarrado pelas presas do elefante, mas enquanto o menino de dentes de mamífero tentava se explicar, foi devorando cada página ao abrir a boca. Os meninos de Saufilin correram chorando. Ao perderem o livro, perderam também o poder de decorar. Tinham esquecido tudo. Choravam desesperadamente porque nunca mais poderiam trocar seus conhecimentos por balas quadradinhas.

O menino com dentes de elefante dizem que se perdeu pelo campo das tulipas e foi parar do outro lado da cidade. Apareceu por lá comendo sementinhas de girassóis.



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domingo, janeiro 04, 2009

Estrelas, gatinhos, pinguis e morsas

Comia morangos mofados como quem come chocolate com bolo.

Eliardo Quixo Coutinho tinha 24 anos quando descobriu que tinha um dedo mindinho mágico. Poderia transformar qualquer coisa mofada em qualquer outra coisa não visualmente mofada com gosto de chocolate. Pensou em abrir uma doceria, uma padaria ou uma loja de delicatessen. Já até visualizava seu futuro: se estabeleceria em um chalé de madeira rodeado de plantas com luzes de Natal. Ouviria estrelas, gatinhos, pinguins e morsas toda vez que um cliente abrisse a porta e pedisse: "Um Eliardo Duplo para viagem, por favor. Com calda de morango." Seus doces teriam nomes importantes.

Todavia enquanto usava a pá na terra úmida somente ouviu (de uma menininha de vestido amarelo, cuja mãe chorava a perda do avô paterno): "Mas que cheiro de morango mofado"

Eliardo coçou o nariz com o dedo mindinho enquanto terminava seu trabalho temporário de sete anos e falou baixinho:

# Pronto, mais um bolo de chocolate.



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