sexta-feira, dezembro 07, 2007

O último de nós

Sara colocou um saquinho de maracujá dentro do bule. O cheiro do chá percorreu a cozinha, penetrando nas ondulações douradas de seus fios de cabelo. A jovem de calça jeans desbotado ajoelhou-se no piso gelado da tarde de junho.

“A aquisição natural da língua” – ela pensou.

O silêncio com seu som diabólico, pinicando os pensamentos, futucando como manicures em busca de uma cutícula perfeita. Sua mão firme abraçava uma tesoura cega. Cega, mas com dentes fortes que uivava. Que gritava fortemente pelos poros de sua têmpora.

Dois dedos puxaram a língua.

Já que estou aqui, qual seria o gosto? Qual seria a sensação?

Ela lembrou-se , quando pequena, das vezes que engolia botões só para ter a sensação de quase vômito.

Qual a importância de vencer o tédio para a humanidade? O que é desejar uma sensação forte para calar o vazio?

Sara não acreditava nas loucuras que as pessoas diziam terem feito. Porque loucuras para humanos comuns também são sensações inalcançáveis. Para o verdadeiro louco, sua loucura é um sistema de verdades catalogadas. Um arquivo com exemplos plausíveis. Um número exato das vezes onde ele alcança o objetivo.

A jovem só estava interessada em sufocar a sensação de perda. Onde estavam as chaves?

A tesoura cortou. Cortou uns pequenos vasos linguais, fazendo escorrer pela traquéia o gosto pleno do vermelho. Cheirava a saliva. E saliva era humana demais.

Sara teve espasmos. Rodou pelo piso gelado da tarde de junho. Sentiu o cheiro do chá percorrer as ondulações douradas de seus fios de cabelo. Com a mão trêmula, jogou a tesoura dentro do bule. O barulho ecoou pelo cômodo. Fez com que achasse a chave jogada no pé da geladeira. Fora da janela, o astro que rege nosso planeta deitava-se. Ela foi até a porta de compensado e introduziu a chave na fechadura. Ouviu o click da noite adentrando e sua saída se deu pela esquerda.

Um único canino afiado alongou-se dentro de seu sorriso, dando boas vindas ao barulho da rua. E a rua era humana demais.



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