segunda-feira, julho 31, 2006

Bahia de Ganabara

O corpo de Maria Carla foi achado perfurado de balas na Bahia de Ganabara. O jornal local noticiou seqüestro, os vizinhos alegaram que foram as balas perdidas.

O juiz fechou o caso indiciando o prefeito. A cidade foi condenada: distrito nocivo ao corpo humano.



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sexta-feira, julho 28, 2006

As crianças da rua Clara de Araújo

# Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze...

As crianças da rua Clara de Araújo procuraram os lugares mais inusitados para se esconderem.

Hugo escolheu a mangueira da casa 679, Juliana o Fiat Uno, Pablo a lata de lixo azul que fedia a bananas podres. Camila o portão da tia de Hugo, Caio os caixotes de papelão que guardaram a geladeira nova da mãe de Pablo.

Mas Daniel foi além e encontrou entre o campo de futebol e a padaria que estava se estabelecendo ali, um túnel de madeiras. Fabio cara de caramujo nunca o encontraria. Ele ouvira ao longe “Noventa e três, noventa e quatro, noventa e cinco”. Encolheu-se mais, adentrando a escuridão. O chão frio da terra tocava sua pele clara, sujando seu short de tactel.

# 97, 98, 99, 100! Lá vou eu!

Daniel conteve seu risinho de vitória. Pablo foi o primeiro a ser encontrado. Por mais que tentasse só conseguia segurar a respiração por 25 segundos e o latão azul exalava um odor muito fétido. Seu recorde foi 27. A mais difícil foi Juliana.

Quando todos já tinham cansado de procurar, começaram a chamar pelo nome de Daniel.

“Seria mais divertido se eu desse um susto neles!”

Encolheu-se mais. A única coisa que brilhava no escuro do túnel eram duas listras brancas de sua blusa. As crianças da rua Clara de Araújo se dispersaram. Daniel esperou por uma hora e adormeceu. A terra era acolhedora. Os piolhos de cobra faziam cócegas em suas unhas. Tampou os ouvidos para que eles não entrassem. As pálpebras pesaram. Os burburinhos dos seres intraterrenos o ninaram. Era encantado ver o trabalho das criaturas naquele túnel. O toque pulsava.

Acordou sobressalto, seu pé fora puxado.

“Caracoles! Fabio me encontrou”.

# Tá, já tô saindo.

Puxou o pé, mas a perna fora enroscada.

# Me solta, Fabio!

A resposta veio com o apertão na perna. Seu pé foi puxado novamente. Daniel tentou bicar com o outro pé, mas as duas pernas foram presas. Seus ossos estalaram. Estava escuro, mas Daniel viu que o sangue se concentrava.

# Fabio?

Ele empalideceu.

# Ju? Pablo? Camila? Caio?

Somente a terra. Algo quente molhava sua barriga. Movimentou-se, mas o aperto foi tão forte que quebrou em três partes seu fêmur.

# Socorro! SO-CO-RRO! Socorro!

Quanto mais ele se desvencilhava, mas o abraço crescia. Primeiro o fêmur, depois a bacia triturada. A dor o fez desmaiar. Quando abriu os olhos, vozes ao longe. Já amanhecia. Tentou mexer os braços, mas também estavam presos. Apesar do sangue roxo, era quente o abraço. Pulsava vida. Não conseguia chorar, a respiração era fraca. Daniel sabia, um movimento a mais e o abraço subiria e esmagaria a garganta. Sentiu-se claustrofóbico, o abraço espetava.

Desviou o pensamento para o número de piolhos. Um. Dois. Tossiu. Um estalo. Os seres intraterrenos calaram-se.

O abraço foi se afrouxando. Já era dia.

Do túnel, um ofídio, em espetacular dança, réptil pertencente à sub-ordem dos lagartos que detecta as vítimas pela percepção do movimento e do calor e que se alimenta de pequenos mamíferos, ziguezagueou fugindo da luz.

Acharam o corpo três dias depois, repleto de piolhos de cobra. As crianças da rua Clara de Araújo não brincam mais de pique-esconde.



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quinta-feira, julho 27, 2006

O recorde

É PROIBIDO FAZER XIXI NO PROVADOR.

Anamélia percebeu a plaquinha quando o fecho de seu sutiã bateu no espelho e ficou preso no X da frase.

"Mas quem faz xixi aqui?", ela pensou.

"Será isso uma pegadinha? Algum recorde local? Um desafio? Um passe ou repasse do Silvio Santos?"

A única coisa proibida que conhecia era o batidão do funk. Ela não estava com vontade, porém apertou a bexiga mesmo assim. Limou a parte envernizada com uma perfeita poça de urina , abaixo do gancho onde se coloca as roupas que se experimenta. Deu dois pulinhos para que os pingos secassem mais rápido. Levantou a calcinha e sorriu para o espelho.

"Pronto! Agora eles vão ver quem vai ganhar!"

A blusa que levara para experimentar estava apertada. Gordurinhas pulavam para fora do tecido. Anamélia abriu a porta da cabine do provedor e como se fosse o dia mais feliz e orgulhoso de sua vida, disse para a vendedora:

# Nunca vi nada tão perfeito. Vou levar.



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quarta-feira, julho 26, 2006

Vida bela

Eires apertou os passos. Antes de atravessar a avenida, jogou o jornal no grande alçapão. Contou até 3, respirou fundo e correu. Grossos pingos de chuva banhavam seu corpo.

A teoria humana é de que quanto mais você corre, mais molhado fica. Os pingos o encharcavam porque ele ganhava velocidade. Nunca ia conseguir andar calmamente enquanto o céu se abria. Trovões, nuvens carregadas e aves noturnas suspendiam o beco. Nunca teve medo de nada. Conhecia sua cidade mais do que a palma da mão de seu pai que cismava em perguntar, toda vez que Eires o visitava, se a linha da vida de um velho diminuia conforme os dias vividos.

No beco, não chovia. Um pé
lá e outro na rua. Um seco e outro enlameado. Eires coçou o nariz. Sua rinite era alérgica. Alérgica à situações constrangedoras. Eires se sentia constrangido porque era o único que estava com os pés no limiar. Teria ele saído da Caverna? Teria ele vivido as sombras de Platão? Como todo digníssimo pretendente à sofista, colocou os dois pés no beco. Céu limpo. Pigarreou.

# Alguém no beco?

Um pigarro respondeu: # Alguém no beco?

Eires: # Quem é você?
A voz: # Quem é você?

Caixa de Pandora? Eires não ia ficar brincando. Colocou os pés para fora do beco, mas a sombra o puxou.

# Quem é você?

Eires tentou se soltar, mas algo o sufocou. A sombra enfiava um lenço umedecido dentro de sua garganta, sangue escorria pelo dorso de seu corpo.

A sombra: # Quem é você?

Os olhos de Eires abriram e fecharam. Quanto mais ele tentava se soltar, mais o pano entrava boca a dentro. A coisa começou a ficar preta.
"Então é isso morrer? Mas eu ainda estou pensando!"

A sombra o prendia com mais força.

# Quem é você?

Em seu suposto segundo vital, ele viu seu pai mostrando a linha da vida de seu sobrinho. A beleza da vida não estava no céu nem dentro do humano e sim nos olhos daqueles que nos cercam e nos amam. Em seu pai mastigando uma goiaba, em seu sobrinho colocando cerol na pipa, em seu bocejo pela manhã seguinte.

# Quem é você?

A sombra o asfixiava. Viu seu corpo e sua pele roxa. Seu pensamento ainda estava lá.

"Não quero que me vejam morto em um beco." "Quantas coisas ainda não cheirei?"

A sombra quebraria seu pescoço nos próximos segundos. O pensamento de Eires explodiu quando viu que a sombra estava mais próxima.

# Eu sou Eires. Quero viver. Não quero morrer ainda.

O beco se abriu. A chuva torrencial despencou em sua cabeça. Eires abriu e fechou as mãos. Sangue escorria face abaixo.

# Quero viver, ele sussurrava em pensamentos.

Saiu do beco se arrastando, sem forças para explicar, sem suor para correr. Os pingos de chuva atingiam sua pele esporadicamente. Atrás de si, as sombras se escondiam.

"Vida bela", queria dizer.



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terça-feira, julho 25, 2006

A vida depois do Orkut.

Quintanilha e Ferreira via MSN:

Quintanilha: Ei, liguei o Soulseek.

Ferreira: Essa porra de Soulseek só abre no log do Fonseca, no meu dá erro.

Quintanilha: Meu xp nem tem esse lance, ainda bem.

Ferreira: Mas por outro lado é melhor, dá mais privacidade pro usuário.

Quintanilha: Aqui eu nem preciso.

Ferreira: Sua irmã nem mexe muito, né? O pc é praticamente seu.

Quintanilha: Se eu quiser esconder um arquivo é só ocultar ele, ela é anta, não sabe de nada. E minha irmã tá parando de usar o pc, ainda bem.

Ferreira: Ela ainda é evangélica?

Quintanilha: Sim.

Ferreira: Ela tem Orkut? Deixa eu ver.

Quintanilha: Deixa eu achar a conta dela. Ela não tá na minha lista.

Ferreira: Vc não tem sua irmã como amiga do Orkut?

Quintanilha: Nops. Eu falo pra ela que eu não tenho Orkut. Senão os parentes que tão na lista dela vão começar a me adicionar.
http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=00000010008000066691
Ferreira: Uau! Vc tem uma irmã loira? Pô, do jeito q vc falou pensei q fosse mó bocó.

Quintanilha: HAHAHAHHAHAH. Mas ela é.

Ferreira: Ela só é paty.

Quintanilha: E anta. Muito anta. Só fala antisse.

Ferreira: O cabelo dela é bom.

Quintanilha: Bom nada. É chapa.

Ferreira: Sério?

Quintanilha: Me dói a mente só de pensar nas coisas que ela fala.

Ferreira: Já sei pq ela é evangélica. Na igreja todo mundo se pega.

Quintanilha: Ela tem noivo. E ela absorve as antisses que o pastor fala. Ela fala em diabo...bixo perversso..HAHAHHAHHA

Ferreira: HAHAHHAHAH

Quintanilha: Pastor dela aqui em casa falando que a cultura estraga a pessoa. Engana mente pq não vem de Deus e sim do homem.

Ferreira: HAHAHHAHHA Tadinha. COMUNIDADE: MULHERES ODIADAS POR NAMORADAS. OUTRA: EU TENHO IDIOTA NA TESTA? HAHAHHAHHAHAH

Quintanilha: Outro dia me perguntou: "-que que é judeu mesmo?"

Ferreira: HAHAHHAHHHHAHAHAHAHAHAHHAHAHHAHAHAH Ok, chega. Vms almoçar?

Quintanilha: Tá.

Ferreira e Quintanilha saem de seus pcs, localizados lado a lado. Quintanilha pega o casaco. Ferreira tira uma grana da carteira.

Quintanilha: Outro dia: AAI SERÁ QUE SEU COMER OUTRO POTE DE PUDIM EU VO ENGORDAR?

Ferreira: Credo. Burralda...



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segunda-feira, julho 24, 2006

A última abduzida

Corina acordou na estrada. Mosquitos zumbiam em seu ouvido esquerdo. Botou a mão no rosto, escondendo-se do sol. “Odeio protetor solar”, pensou. “Por que não nasci na Groelândia?” - resmungou. Era duro ter uma vida backpacker. Uma filosofia de não materialismo. A primeira coisa que perguntavam quando ela pegava uma carona era se ela era lésbica, se queria preto ou branco ou se tinha tido alguma decepção na vida.

“Eu fui abduzida”, era o que sempre dizia.

Ela foi entender que a palavra abduzida tinha muitas definições em diferentes línguas. Muitos entendiam como estupro, outros como uma doença e alguns achavam que se tratava de milagre. Ela usava o antigo óculos rayban da avó e Fator 30.

Hoje ela precisava de água, água potável. Água limpa. Tinha ouvido na TV da cidade passada que a água estava contaminada. Gripe do peixe. Desde então só água com gás pelos botequins da vida. Hoje, porém, precisava de água pura.

“Calor dos infernos”, murmurava.

Andou milhas americanas, quilômetros brasileiros e pedaços europeus, mas não encontrou bebedouro nem alma condizente com sua vontade.

“São Longuinho, são Longuinho, se eu achar alguém que me dê um pouco de água, dou 10 pulinhos”.

“Ok, 10 pulinhos a cada 2m”.

Nada.

“Vida longa àqueles que possuem piscina em casa!”

Na estrada, um jipe passou. Poeira levantou. Um cara foi jogado pro lado da grama. Usava uma medalhinha com uma imagem. Corina não conseguia decifrar o que era. Seu rosto estava banhado de suor. Ele pegou uma garrafa de água, jogou inteira em seu rosto.

# De lafaard! Snak leven naar domheid!

E o jipe avançou com uma buzina raivosa. Corina perdeu uma possibilidade de andar menos.

# Wat is op, meisje?

Tudo que ela não queria estava acontecendo. Tudo, inclusive encontrar um holandês.

# Ik haat Nederlands, ela respondeu.

O cara da medalhinha gargalhou.

# Eu também!

“Não, pior que holandês. Um brasileiro”.

Corina caminhou apressadamente.

# Sei que é brasileira, que odeia holandês e que é uma backpacker. Dia difícil, não?

Corina retirou a tampa do desodorante em seu bolso. Se ele chegasse 2 metros mais próximo, ela estrearia o Axe novo.

O sol fervia.

# Sei também que não é muda. Não sou um louco, nem serial killer. Vida longa aos mochileiros.

Ok, ela tinha que parar. Era um lema. Porra de um lema inventado em um subúrbio que floresceu no mundo como o Paz e amor dos hippies.

# Rafael. Brasil.

# Corina. Mundana.

Rafael gargalhou.

# Você é brasileira, eu sei. Só os brasileiros usam óculos desse tipo.

Pois bem, ele era realmente um mochileiro e brasileiro, com certeza.

# Uruguaina, 1996.

# Minha avó me deu. Por que perdeu a carona?

# Incompreendido. É mais difícil para um homem, sabia? Todo mundo acha que é um assalto. E quando eu começo a falar, eles sempre ficam ofendidos.

Corina e Rafael caminhavam agora lado a lado. Nenhuma árvore por perto.

# Ofensas?

# O cara era um materialista e estava destinado a morrer de hemorróidas.

Corina sorriu pela primeira vez.

# Eu tenho hemorróidas.

# Morte dura. Qual seu destino?

# Próxima cidade e você?

# Próximo estado.

# Você acredita em destino, Corina?

# Não, só em santos.

Corina odiava falar enquanto andava, cansava mais. O que tinha encontrado pelo caminho era um típico iniciante brasileiro, disposto a seduzi-la. “Merde”. Era sempre mais bonito xingar em francês.

# Primeira vez?

# Não.

# Experiente então?

# Celibatária.

# Sério?

# Sim, só para brasileiros.

# Hum... Se você quiser, posso ir pra outro lado.

# Sim, quero.

# Você é sempre bem humorada?

# Você é sempre bem falante?

Rafael sorriu. Ia atravessar para o outro lado, mas voltou.

# Ei, Corina!

Corina virou-se. Ele jogou uma garrafa típica de corredor para ela. Cheia de água.

# Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus.

Ela agarrou. Sorriu.

# Boa viagem, Rafael.

“Merde”, pensou Corina. 10 pulos a cada 2m.



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sexta-feira, julho 21, 2006

O predestinado

Caminhão vinha pela Dutra. Derrapou em 200 cascas de bananas e derrubou 300 garrafas de Coca- Cola. Pet 2,5L. Eduardo levantou-se da cadeira de plástico, atravessou a tela de proteção. Esperou um Escort XR3 passar e correu sorrindo, usava aparelho com um brilhinho verde água. Pegou 3 garrafas e pulou a cerca. O líquido esparramava-se pela pista. Limpou o sangue de Maria Clara, morta semana passada. Sangue pisado. Eduardo dirigiu-se à casa de Fabiano. Bateu no portão de ferro descascado.

#Aê! Deus mandou a bebida do dia.

Abriu a garrafa. Um pequeno estouro. O gás fez com que lacrimejasse.

#Feliz aniversário, irmão!

#Jeová seja louvado!

Beberam na garrafa. Rolou um beijo na oficina de trás.
Eduardo sabia escolher as horas.
Era um predestinado.



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quinta-feira, julho 20, 2006

Foda literária

Carla e Carlo no motel Vison. Quadro espelhado. Som quebrado. Calcinha jogada.

Carla: Me chama de putinha!

Carlo: Putinha, querida? Você sabe que o termo vem do latim putta, ‘menina’? Termo chulé que quer dizer meretriz, mulher devassa, libertina, livre de qualquer peia moral, dissoluto. Puta era o nome de uma das Di indigetes romanas, deusa indígena, responsável pela poda de videiras e outros arbustos, evocada especialmente na manutenção das vinhas. Qual das categorias você quer? Puta paga, puta rampeira, putana , putanesca, putanete , putinha relaxada , putéfia , putete, putinha , putona , quenga , querrenca, rabaceira ou rainha do Farol?

Carla: Ai!
Carlo: O que foi?
Carla: Ok, gozei.



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quarta-feira, julho 19, 2006

O menino que sabia contar estrelas

João Gabriel tinha 8 anos quando sua tia lhe contou os segredos das estrelas.

'... e se você conseguir, João, poderá sim ir para lá.'

Ele ouvira atentamente. Depois daquela conversa, ele passava duas horas sagradas olhando para o céu. Da varanda de sua casa, juntamente com Thor, seu gato, ele se perdia. As estrelas brilhavam mais naquela época e ele ainda não tinha um ICQ. Thor era mais fraco, não agüentava o silêncio e ia beber seu leite de vez em quando. Mas curioso, sempre voltava. Aí João acariciava seu focinho, colocava-o no colo e juntos contemplavam a abóbada celeste noturna. De vez em quando, ouvia-se um grilo, outras Thor adormecia, mas os olhos do pequeno João não piscavam.

Foi nessa mesma época que João descobriu seu segredo. Sim, porque todas as pessoas tinham segredos. Sentiu medo e calafrios quando seu pensamento sussurrou em seu ouvido. Passou mais ou menos três meses ouvindo sua mãe perguntar o que acontecera. Depois desse tempo, ela parou.

O dia da revelação foi uma noite quente. Ele não conseguia dormir. Mosquitos faziam barulho perto do travesseiro. Cigarras estavam prestes a morrer depois dos cânticos veraneios. João Gabriel saiu do quarto com os pés nus. O chão vermelho estava gelado. Thor não estava em sua cama. Abriu a porta da varanda bem devagar e pulou para a parte de fora. Um vento mais forte fez a porta bater com mais força, atrás dele. Esperou alguns minutos, de olhos fechados, pois tinha certeza de que seus pais apareceriam e uma falação começaria. Mas o minuto se passou e nada aconteceu. Ah! Sim. Um sino dos ventos, aqueles que ficam pendurados na porta ou na janela, vibrara com a brisa quente.

João abriu os olhos. Fitando o céu estava Thor. Seus olhos não piscavam.

‘Thor?’

O gato não miou. Virou a cabeça convidando o menino a se sentar. João deu 7 passos em direção à seu gato de 7 anos. Os dois ficaram sentados por 7 minutos. João tinha um sorriso no rosto e olhos vidrados no céu. Thor foi à procura de sua bebida e quando voltou tinha bigodes de leite. A mão de João ia em direção à seu focinho quando ouviu:

‘Você caminhará só, João.’

O menino de 8 anos desviou o olhar do céu para o felino.

‘Não adianta se esconder na multidão. Sua passagem é solitária. Este é o segredo.’

João piscou mais forte e mais vezes. Seu gato o fitava.

‘Uma noite longa. Uma vida curta, mas já não me importa...’

O bichano então sentou-se perto de João. Com uma respiração bem equilibrada, ronronou carinhosamente. João limpou seus bigodes e os dois voltaram a olhar para o céu.

Dia seguinte, Thor amanheceu morto.

O enterro foi perto do morrinho. Seu pai cavou um buraco bem fundo e o jogou lá. Estava quase anoitecendo quando acabara. João colocou uma tulipa no monte de terra e ajudou o pai a levar as pás para casa.

Seu pai dirigiu-se ao banheiro e João voltou-se para o céu da varanda. A verdade é que todos os meninos sabem contar estrelas, mas quando se assombram, esquecem. E aí, começam a crescer.

O dia estava frio. Era um dia para os esquecidos. João não conseguia mais fitar o céu, somente os dedos das mãos. Seu avô dizia que na época dele as pessoas que muito olhavam para mãos logo morreriam.

João olhou para cima, mas o céu estava negro, sem estrelas e sem planetas. Uma lua minguante se escondia atrás de nuvens cinzas. Ele se assustou com um barulho no mato. Pulou quando um vento mais forte o atingiu. Correu e abraçou a mãe quando uma coruja cruzou o telhado de sua casa.

Nunca mais sentou-se ali.



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segunda-feira, julho 17, 2006

O homem que não comia maçã com casca

A maçã estava comida pelas beiradas. Seus caroços estavam nitidamente apodrecidos. O homem mastigava. Formigas passeavam pela ponta da pia. Iam e viam de seus caminhos flutuantes. Terceira fruta. Ele pensava no amanhã. O que faria. Como faria. Necessitava calcular para registrar os lucros. As porcentagens, a parte líquida da bruta. Suas viagens. A promessa de levar sua avó para Aparecida do Norte. As mulheres da faculdade. A dívida da casa da praia. Se investisse mais, daria para comprar o novo iate. Se jogasse sujo, dava para arrecadar fundos e se associar à Ong nacional que forjava imposto em troca de premissas interessantes. Poderia apostar nos vereadores locais. Quatro anos de regalias. Não, tinha que abordar os senadores. Peixe se pega pela goela, não pela minhoquinha. Sexta maçã.

A maçã é uma das frutas
mais cultivadas do mundo. A maioria das maçãs produzidas são frutos das macieiras, árvores da família Rosaceae
, pertencentes ao género Malus. As variedades mais comuns são M. domestica e M. sieversii e respectivos híbridos.

O homem não comia maçã com casca. Alto teor de pectina.
Também detestava os agrotóxicos. Preferia desnudá-la e saborear o interior, como fazia com sua coleção de moedas de um real. Gostava de cheirá-la assim como a fruta.
O homem então, cabisbaixo, em seus pensamentos monetários, resolveu cheirar as formigas. Ele tentou, mas não conseguiu. Tocou a antena de uma. A formiga desesperou-se e caiu em um copo. Tentou mais uma vez, a outra atingiu a geladeira. O homem, com raiva, pegou a maçã e esmagou a formiga. Um estalo. O que ele não sabia era que uma formiga esmagada deixa uma feromona de alarme que, se for numa grande concentração faz com que as formigas que estiverem próximas entrem em ataque. Sem noção disso, o homem começou a esmagar todas as frutas em todos esses seres do mundo dos insetos.

O que ele também não sabia era que as formigas atacam e defendem-se mordendo ou picando, por vezes injetando compostos químicos no animal atacado, em especial, o ácido fórmico
. E o que ele também não sabia era que debaixo de sua pia havia mais ou menos a população da cidade da França em túneis e berçários subterrâneos.

Sim! Ele havia encontrado a solução! Teria o poder de volta! O dinheiro, a fama, a competição, o status. Um barulho vinha de dentro do cano central.

Sim! Tenho que ligar para a empresa!

Mas o cheiro estava forte. Um odor exalava da cozinha. Curioso, ele retirou a peneira do buraco da pia e colocou o dedo. Uma pequena fisgada.
O que ele também não sabia era que as pequenas formigas desenvolvem-se por metamorfoses
completas, passando por um estado equivalente à lagarta. A lagarta não tem pernas e é alimentada pelas obreiras por um processo chamado trofalaxia, no qual a obreira regurgita alimentos por ela ingeridos e já parcialmente digeridos. Os adultos também distribuem alimento entre si por este processo. As larvas e pupas precisam de temperatura constante para se desenvolverem e, por isso, são transferidas para câmaras diferentes, de acordo com o seu estágio de desenvolvimento. A diferenciação
em castas é determinada pelo tipo de alimento que recebem nos diferentes estados larvares e as mudanças morfológicas que caracterizam cada casta aparecem abruptamente.
Ao colocar a peneira no buraco da pia um estouro. Como um grito vampiresco, as formigas explodiam e saiam do buraco. Rápidas, insistentes, elas postaram-se diante do homem. A última maçã estava em sua mão. O fone do telefone em outra. As formigas se comunicam através de compostos químicos chamados feromas. Um feromona de alarme.
O homem esqueceu a solução de seu problema. O fone caiu. Não houve tempo para pensamentos, nem segundos onde a vida passava. Todas as cavidades humanas foram preenchidas. Seu corpo tinha perfume de maçã, um líquido doce escorria por sua boca.
Algumas espécies de afídeos segregam um líquido doce que normalmente é desperdiçado, mas as formigas recolhem-no e, ao mesmo tempo, protegem os afídeos de predadores e chegam a transportá-los para locais com melhor comida.
O corpo humano é frágil e vulnerável. Acredita-se que a primeira aparição das formigas na Terra foi durante o período Cretáceo (há mais de 100 milhões de anos) e pensa-se que elas evoluíram a partir de vespas que tinham aparecido durante o período Jurássico.

O homem era cooperativo, inteligente, comensal, parasita e aproveitador. Adorava maçãs. Mas o que ele não sabia era que algumas espécies, chamadas “formigas-assassinas”, têm a tendência de atacar animais muito maiores que elas, quer para se alimentarem, quer para se defenderem.
Se era alimento ou defesa, não podemos confirmar, mas a agressividade
e espírito de vingança vinha do cheiro humano.
Na cozinha, agora, só cascas de maçã.



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quinta-feira, julho 13, 2006

Omo

‘A vida é uma escolha estranhamente insensata’, pensava Andréia ao ver casas de pau pela janela do trem. O trem havia mudado durante os últimos anos. Telas de cristal líquido passando propagandas de Omo, assentos acolchoados, tapete verde. Ar-condicionado. Pessoas fedendo a cigarro e pinga às 7 da manhã. A vida interior continuava a mesma, apesar do invólucro pós-moderno. Homens de pau-duro e obscenos. Meninas estudando com fichários pendurados. Homens de terno dormindo sentados. Velhas com 5 filhos implorando por um lugar apertado.

‘Por que me sinto triste se a vida corre desesperadamente do lado de fora?’

‘Por que as crianças de pés sujos sorriam e me acenam?’

Não há nobreza no mundo que explique o indivíduo feliz. Em meio a restos de comida, roupas penduradas no varal, calcinhas expostas, fraldas descartáveis abertas, as crianças sorriam e acenavam. O trem era belo. Era erroneamente de todos. Andréia só estava ali de passagem, vendo as casas grudadas umas às outras e as crianças que sorriam e acenavam.
Seria ela um espetáculo? O exemplo de pessoa sucedida? A mulher que viajava duas horas para chegar ao trabalho? Que disputava o melhor café às 10 da manhã? Aquela que voltava adormecida entre os trabalhadores braçais e as domésticas que gargalhavam ao som de algum cântico evangélico? As crianças apenas sorriam e acenavam. O trem não variava mais. As paradas eram cópias do metrô. Mas as pessoas fediam e as crianças ainda sorriam.

De costas para o vagão, ela soltou. Portas abertas, emperradas por algum rapaz que precisava de ar puro.
‘Porque se sujar faz bem’ iluminava o vagão.

‘É, vou mudar meu sabão para Omo.’, pensou Andréia.



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quarta-feira, julho 12, 2006

A fila anda.

Espera na fila de cinema. Sábado à noite. Lisa e Victor em uma conversa casual.

# Fantasia número 1:
# Trepar no meio da rua.
# Conhecido?
# Desconhecido.
# Camisinha?
# Sim, a porra escorre pelas pernas, Victor! Fica grudando igual gordura de mesa de padaria.
# Noite ou dia?
# Noite.
# Ah! Você é certinha!
# Minha vez: o que não faria nem por um milhão de dólares?
# Dar o cu.
# Resposta óbvia.
# Nem por dois?
# Cinco, talvez.
# O ser humano é naturalmente corrompido.
“Dinheiro, cartão ou cheque?”
-Débito.
“Qual sala?”
- Dois.
- Três.
- Victor!
Ambos ao mesmo tempo: Seis.

Fila de pipoca.

# Minha vez. Já pensou em menage a trois?
# Com homem?
# Não, com mulher.
# Ai, que perguntas óbvias. Sim. Você não?
# Pessoa que não treparia.
# Meu tio Silas.
# Por quê?
# Ele votou no Lula.



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terça-feira, julho 11, 2006

...

Eu não nasci para me doar.
Não quero que tirem meu sangue,
Que cortem minha face,
Que sacrifiquem meu pulmão.
Me leve para passear em uma cadeira de rodas.
Me delete dos postes de luz.
Me apague dos álbuns de fotografia.
Estou em várias formas,
Um verde desbotado,
Um anil adocicado,
Uma casa estrangeira.
Ela gritará para os céus até os vizinhos vomitarem seus segredos.
Acolherá uma mãe em desespero,
Abrirá uma porta de cristal,
Cravará as unhas nas costas de um monstro subterrâneo,
Nas pernas daquele que não tem nada a perder,
No coração do sonhador,
Naquele que a carrega e pede permissão para ir ao lago oeste,
Na mão dos que usam anéis nos polegares.

Nada ficará bem
Porque dói demais ter o coração aberto.
Mas só por hoje, você pode sussurrar recados violentos.
Pode mandar uma carta por um centavo pelo correio
Com uma palavra exótica,
Com um erro de português,
Com um endereço para me guiar.

Eu acordei pensando em abraçar minha alma mundana.
Seja lá quem for.



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Free One

Era uma vez um rapaz moreno que morava na casa da esquina. Diego. Ele trabalhava em uma loja de conveniência de domingo a domingo. Escala rotativa. Salário miserável. Um dia na vida patética dele e compreenderíamos os roubos dos políticos. Não entorpecemos nossas vidas para esquecer o tédio? Não guerreamos para provarmos que somos mais fortes que a morte? Não matriculamos os filhos nas melhores escolas para que eles sejam melhores competidores?
Diego abre a loja todos os dias às 6 da manhã. Seu chefe é um evangélico que dá propina para o pastor da Nova Vida. Eles adulteram gasolina e compram galinhas roubadas para revenderem em Campos. Diego não fuma, mas bebe cerveja no bar do Anderson. Seu cotovelo é sujo de gordura porque ele bebe comendo lingüiças de porco. Não há toalhas na mesa. Chave na porta. Cheiro de Limpol. Dona Mazé limpara ontem o departamento. Esquecera o Veja em cima das salsichas do cachorro-quente. Diego ajeita o uniforme, confere o caixa, pega um escovão e limpa o chão novamente. Arruma as prateleiras, pensa no show de pagode que sua mulher foi sábado passado. Lembra de Marina. Toca punheta no banheiro com cheiro de Omo. Joga a porra na pia. Ele gosta de ver a água escorrendo no pau. Limpa as mãos com sabonete líquido verde. Olha os dentes no espelho embaçado. Passa gel no cabelo. Abaixa as calças. Caga. Limpa a bunda. Cliente espera.
#Tô indo!
Levanta as calças. Não dá descarga, deixa a merda nadando com formigas vermelhas e guimbas de cigarro. Não lava as mãos.
#Tô aqui, moça.
#Oi. Quero um Free One.
# Não tenho troco. Abri o caixa agora.
#Vai ali no Posto e troca.
#Não posso deixar a loja sozinha.
#Mas eu quero um cigarro.
#Não tenho troco.
#Eu fico aqui.
#Quem me garante que a senhora não vai roubar?
#Que isso?! Claro que não vou roubar.
#Não posso confiar. Perco meu emprego.
#Mas não tinha ninguém aqui quando eu cheguei!
#Eu tava no banheiro.
#Viu? Não tinha ninguém aqui!
#Eu estava aqui, só que no banheiro.
#E se eu roubei alguma coisa?
#Eu preciso chamar o gerente então.
#Você sabe que eu posso muito bem te denunciar? Você vai para o olho da rua, seu porco fedido!
#Satisfação.
#Vai se fuder! E leva essa loja no cu!
#Obrigado e volte sempre!

Cliente bate a porta.
#Mal educada!

Diego vai para trás do balcão. Abre a caixa registradora. Tira um bolo de notas, enfia no envelope. Vemos várias moedas no caixa.

#Sangria de novo? É, seu Geraldo! Vai enriquecer este ano!

Dá uma risadinha de porco e sai cantarolando “O destino aqui me trouxe. Cantar para vocês eu vou, eu só trouxe coisa boa, foi meu sertão que mandou”.

Para quê pagar IPTU, hein?



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sexta-feira, julho 07, 2006

Manson

Bar cópia texana. Shirley Manson geme no canto do palco. Meia dúzia de cervejas. “Shut your mouth, try not to panic, just shut your mouth. If you can do it. Shut your mouth. Try not to panic. Just shut your mouth. If you can do it. Just shut your mouth” Aquilo era uma ameaça? O que essa porra de música fazia em sua cabeça?
Lucas levanta a cerveja em direção à piranha. Ela geme mais uma vez em sua voz andrógina: “Just shut your mouth”. Lucas manda ela se fuder.

#Mais uma cerveja, Brian!

#Você não deveria estar trabalhando?

#Você não deveria estar trabalhando? Encha essa porra!

Brian é o barman mais antigo deste puteiro de entorpecentes. Há duas semanas Lucas vem evitando o lugar, mas Brian é o único na cidade que ouve opiniões dos fregueses.

# Brian. Chega mais.

#5 minutos, Lucas. Casa cheia hoje.

# Brian, eu fui abduzido.

Há tempos que Lucas não ouvia uma gargalhada como aquela. Shirley ainda gemia.

# Quem chamou essa porra de mulher, Brian?

# Ela é sexy.

# Pára de rir. Foi ontem. Eles mandaram eu ficar quieto, mas eles estão invadindo minha mente. A cidade está sendo vasculhada, eles querem, eles querem...Eles querem o Jongo.

O sorrisinho debochado de Brian desaparecera. Manson agora fazia movimentos com a boca como se chupasse o pau de Brian. Ele ergue uma sobrancelha.

#De quê que você está falando?

# Eu sei muito bem o que vocês fizeram. Eles me contaram. Eles estão te vigiando, cara. Eles vão te levar se o Jongo não desaparecer também.

#Jongo? Abdução? Estamos em uma cidade de merda, mermão.

#Eles querem... eles querem. Se você não der, eu vou ter que, eu vou ter que...

Brian retira a garrafa da mão de Lucas.

#Vá para casa.

# Eu vou ter que... eu vou ter que... Alguém vai ter que...

# Alguém vai ter que te levar para casa. Vamos.

# Você sabe! Você sabe!!! Eles me roubaram! Roubaram!

Lucas chuta o jukebox no canto do palco.

# Eu quero de volta meu... Eu quero de volta minha...

#Vamos, Lucas.

# Merda!

O bar pára. Todos os olhares em direção ao jukebox. Brian arrasta Lucas para fora. O jukebox repete. Lucas. Lucas. Lucas.

***************###******************
Interior do carro. Sapatinho de bebê pendurado no espelho do carro.

#Você disse que....

#Brian, devolva esse Jongo. Devolva tudo. Nós não somos ladrões.

Brian sorri.

#Você bebeu muito, hein? O que será que acontece se você enlouquecer? Me bater e sair correndo igual a um louco, em um carro velho como esse? Cairia do penhasco? Bateria com a cara numa árvore?

#Caralho... Você é ....

Brian freia.

#Eu sou o Jongo. Você é a marionete.

# Mas, se eu não... Porra!

#Eles mandaram você ficar quieto e você abre a merda da boca para a primeira pessoa que vê. Traidor. Humano ridículo que só quer salvar a própria pele.

# Mas você não pode...

#O que faz a raça de vocês tão importante? É o DNA? O amor que vocês pregam e que faz matarem milhões?

# Você vai me matar! Você vai me matar!!

# Histérico!

Lucas tenta abrir a porta e ela tranca sozinha.

#Eu não quero morrer! Eu sou quero de volta meu... minha... Você vai me matar.

Lucas se encolhe no carro e soluça intensamente.

#Você vai me matar agora, Brian?

# Claro que não.

Brian gargalha.

#Você está bêbado mesmo!

A porta se abre.

#Jongo! Abduzido! Arghhhhhh vai embora, seu verme decadente!

Lucas corre pela estrada escura. Brian dá meia-volta e segue pelo caminho contrário. Lucas entra dentro de casa, tranca a porta e se encolhe na cozinha, debaixo da mesa. Barulho de chaleira fervendo. Tremendo, ele levanta. Sentado na cadeira, com uma xícara, Brian sorri.

#Você está pronto, Jongo?



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Clara

Clara não podia se mexer. Nenhum músculo. Estava presa na cadeira.
Há exatos 20 anos, quando o médico entrara pela porta giratória, ela via tudo pelo mesmo ângulo. Nunca levantar a cabeça. Nunca poder mexer os lábios. Nunca poder abrir as pernas. Nadar. Ver e nunca poder se mexer. Ouvir e nunca poder responder. Sentir e nunca poder se expressar. Pensar e não ter ninguém para conversar. Engolir e não saber o gosto. Ter as pessoas por perto e não abraçá-las. Ver as crianças beliscando seu braço e saírem rindo.
Havia 27 sentidos diferentes para entender o vento. 29 direções. 56 tipos de insetos que se instalavam no jardim. Milhares de definições para os raios do sol. Ela conseguia identificar cada estágio de transformação das flores. Teria estudado botânica. Teria ensinado poemas franceses. Como eram bonitas as palavras. Às vezes, enxergava as auras das pessoas. Às vezes sabia distinguir o bom do mau. Como daria tudo para uma taça de vinho tinto. Como daria tudo para ter seus dentes de volta e poder sorrir. Nenhum músculo. Involuntários movimentos. Mulher cantando de costas. O único som produzido era do seu suor. Dia quente, pensou.



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quinta-feira, julho 06, 2006

Diálogo entre Ping e Pong

- Eu sou virgem.
- E daí?
- Não tem nada que te deixe chocada, não? Leo mother fucker balançava a raquete.
- Não.
- Pedofilia? Incesto? Estupro?
- Não.
- Mas que porra de mulher é tu?
Leo mother fucker queria entender Gabrielle. Os dois estavam jogando há horas, em uma partida incansável de idas e vindas no verde da mesa de tênis.
- Você já comeu sua irmã? – Gabrielle sorria enquanto acertava a bola no campo adversário.
- Não. Lógico que não.
- Nunca quis?
- Lógico que não.
- Você sabia que antigamente só era permitido casamentos entre família?
- Gabrielle, eu não vou te comer.
Match Point.
- Hum... que pena. Melhor de três?



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Celine

Acorde pequena Sara depois de amanhã. Quando o furacão tiver passado e as gotas da chuva tiverem secado e o vidro da janela estiver transparente. Acorde pequeno Saulo quando todos os dedos estiverem estalados e a maçã apodrecer no centro da mesa. Acorde pequeno Tomas quando a escada estiver enferrujada e o pó estiver cobrindo os degraus do segundo andar. Acorde Camila quando a rua encher e os ratos morrerem afogados. Quando o sol estiver se encontrando com a chuva e uma meleca for encontrada em um pano de cetim.

Conte os dias para atravessar o Mediterrâneo. Conte as lágrimas do bebê recém-nascido. Conte os pêlos de seu corpo. Os arrepios de frio.


Mas só hoje não acorde doce Celine, deixe-a pendurada pelo cordão de ouro do tempo duplo, deixe-a enforcada nas memórias eternas, deixe-a cega por um dia atrás da saudade doída, atrás do sexo perfumado. Deixe-a partida nos grãos de arroz branco, no vinagre codificado, no azeite brilhante. No sangue pisado, na flor do caixão, no cheiro do travesseiro. No hálito do homem de bruços. Deixe-a gemer na brisa do porto. Nos arrepios da madrugada. Na terra fofa do barro. No amaciante do edredom. Na torrada da padaria. Espere-a nas bolas da esquina. Nas capas de cultura pop. No mp3 da irmã de Júlia.

Mas não a ame. Eu tentei e a matei.



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