domingo, maio 27, 2007

Gerânios

Casagrande tinha o espírito empreendedor. Ele queria um relacionamento duradouro. Precisava de um potencial a ser explorado. Houve um sorteio – Sucesso a todos! - é o que desejavam no meio do ano.

No início Casagrande foi parabenizado.

# Grande homem!
# Sortudo!
# Aposta na loteria!

Na inauguração da próxima fábrica, lá estava o nome: CASAGRANDE

# Uhú!
# Sortudo!
# Estranho.

Os boatos começaram na segunda de manhã.

# Ele é sortudo nada. Puxa saco.
# Viu como ele é zarolho?
# Deve estar saindo com a chefia.

Na época da produção de fim de ano, Casagrande levou o maio prêmio.

# Roubo!
# Safado!
# Pilantra!

5 dias depois, Casagrande escorregou em uma casca de banana, deixada perto da lata de lixo por um colega que sempre comia a fruta tropical depois do almoço. Casagrande teve fratura exposta no membro inferior direito.

Os colegas o visitaram no hospital e levaram gerânios.

Casagrande nunca mais participou de nada. Voltou a ser amado. Agora é convidado para almoços de domingo.



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terça-feira, maio 22, 2007

Os 12 trabalhos de Hércules

Eu tinha ido chorar um desconto.

# Caixa 2, cliente no balcão!

Hércules era um sujeito magrinho, blusa para dentro, cinto da Riachuelo. Casado, pois uma aliança fina circulava seu anelar.

# Meu amigo, chega mais, eu disse.

O prestativo funcionário de cabelo repartido e cheiro de colônia da Natura sorriu, mostrando uma cárie pontuda no começo do dente da frente.

# Ocê que manda, chefinho.

# Bem, pigarreei, sabe como é, né. O serviço aqui anda meio lento, a comida anda meio.

Hércules coçou a orelha suja de gordura.

# Pelo amor de Deus. Se mais um desconto for pedido hoje o meu patrão me manda embora. Eu me descabelo todo o dia, mas ele só quer saber do lucro imediato. 12 serviço foi o que eu peguei esse mês. Minha mulher vai ter nenê e eu nem comprei as Dry Sec. O senhor não acha que mulher era mulher no tempo que a barriga lavava a merdinha da criança? Agora só querem saber de talquinho de bumbum! O senhor não acha que os político tinha que apoiar a gente? O senhor não acha que o patrão podia colocar na entrada do recinto: Vende-se joelho com água de sabor? O senhor não acha que ...o que o senhor queria mesmo?

# Ah...

Virei as costas e fui sentar-me em minha mesa quadriculada, patrocinada pela Skol.

# O que foi, pai?

# Coma seu brioche, coloca a metade da barata no canto. Não se come gafanhoto na Tailândia?



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segunda-feira, maio 14, 2007

Wormholes

Ela entrou dentro de um buraco de chão de terra, deu a volta ao mundo dentro de um wormhole e saiu no quintal do Sr. Gercivaldo. Roubou uma manga, deu a volta pela cerca, entrou em uma equação do 1º grau com uma variável X e amassou minhoquinhas com as unhas cheias de fiapo da fruta.

Quando chegou em casa, o sol estava muito quente e ela teve uma dor de barriga cósmica.



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sexta-feira, maio 11, 2007

Sabadana Ave Maria

# Eu vou te contar um segredo, sussurrou Manuela.

Suas unhas roídas tinham sujeirinhas no canto. Ela também tinha cutículas arrebentadas.

# Eu tenho vergonha. Vergonha de ter acontecido comigo.

Manuela tinha voz de sussurro. Seus olhos amendoados e seus cabelos repartidos ao meio arrepiavam os cabelinhos do braço.

# Você não sabe e nem irá saber como é se sentir sozinha quando toda a dor do mundo corre pelas pernas. A lentidão que o mundo gira e você só querendo respirar. Mas há um pano na sua boca e você nem pode chorar.

Laia ladaia sabadana Ave Maria.

Manuela era uma contadora que fazia os dedos gelarem e os olhos de todo ouvinte marejar.

# Talvez tenha sido minha culpa mesmo. Talvez eu tenha dito sim. Talvez eu tenha deixado mesmo. Talvez a dor seja só para mim sim.

O que todos nós queremos é um lugar perto do buraco da fechadura para espionar os sentimentos alheios.

A menina que deita na cama, molhando o travesseiro. O homem que se alegra com o choro. A força física rasgando em pedacinhos a alma humana.

Manuela sussurrou:

# Todos se afastam quando o mundo está errado. Mas talvez seja eu, só eu. Eu tenho um fichário de erros, o senhor aceita unzinho?



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quinta-feira, maio 03, 2007

Os óculos quadradinhos de Gaena Ginglass

Gaena Ginglass corria acompanhando a pipa azul e amarela. O céu, branco de nuvens, era um gigantesco sorriso Colgate. A menina tinha na palma da mão a felicidade momentânea. Aquela felicidade de segundos que inspira a vida e nos faz lembrar dos momentos quando estamos enrugados, no balanço de cadeiras de vime.

Gaena Ginglass e seus óculos qradradinhos. Gaena Ginglass e suas gotinhas de suor, escorregadias entre os aros pretos e o nariz arrebitado. Gaena Glinglass e seu vestido branco com flores nas pontas.

O céu, branco de nuvens, era um minúsculo ponto na visão dela. Grande era o voar da pipa azul e amarela. Grande era o coração palpitante, emocionado com o primeiro vôo de sua décima grande pipa. Grande era o tumor localizado no hemisfério cerebral que a faria desejar tão grande enxergar novamente. Grandes seriam as sombras das pessoas. Seus grandes movimentos seriam percebidos quando ela estivesse deitadinha, com suas gotinhas de suor, escorregadias entre os aros pretos e o nariz arrebitado.

Grande o mundo era, só que às vezes nós ficávamos nos sentindo tão grandes que esquecíamos do céu branco de nuvens no minúsculo ponto da visão dela.



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