domingo, maio 02, 2010
Entre os dedos
O que o homem de blusa azul não sabia era que suas chaves não eram mágicas. Ele abriria a porta, a fecharia, trancaria algumas vezes, destrancaria outras e chamaria um chaveiro em dia de chuva.
Elas só organizavam seus pensamentos. Elas balançavam ao ritmo das pernas. Ao ritmo do peito, das mãos soltas que carregam pastas de papéis recicláveis. As chaves eram como experimentos. Tubos de ensaio para palavras que nunca existiram, fórmulas para uma física sem química. As chaves pesavam entre os dedos para que os diálogos fluíssem em esferas sociais, para que o homem de blusa azul pudesse ter sua oralidade expandida e seu respeito reservado.
Foi somente quando elas caíram do meio-fio para outro meio-fio, por uma vertigem não-identificável, que ele viu que as chaves não eram amuletos nem tinha especialidade. Quando a cabeça do metal encontrou o concreto e quicou algumas vezes, ele foi sacudido por dentro, percebendo que as palavras eram dele, não do objeto.
Ficou um tempo piscando. Piscando. E piscando.
Depois pulou o muro de casa e não dormiu.
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