domingo, agosto 29, 2010
A maleabilidade do arame
Foi um clip enferrujado que fez o menino de 9 anos pensar. Ele rodou o objeto por entre os dedos e sentiu as partes desbotadas. Havia um domingo meio triste meio alegre do lado de fora da janela. Havia uma antena parabólica apontada para o azul sem intensidade. E havia a caixa d'água e as possibilidades de mergulho. Seu pai sempre dizia que ele devia respeitar sua condição. O menino sempre fazia isso, mesmo tendo as costas pressionadas, o coração empurrado e uma falta de coisa pela garganta abaixo. Mas hoje, o dia estava silencioso. Os animais de asas voavam sem som. As folhas balançavam sem graça. As pessoas mexiam as bocas, sem sair palavras. Nem aviões cruzavam o céu com seus barulhos identificadores. Eles passavam lá, como pontos em radar no mudo.
Só havia a pressão na coluna, o aperto entre o peito e os lábios secos. O menino pegou uma pontinha do clip e enfiou na tomada. Jogou um pouco de cuspe para umedecer. Das 30 maneiras de se levar choque, essa foi instintiva, sem a procura pelo Google. Uma leve eletricidade percorreu o corpo. Ele achou que seus olhos piscavam mais rápido, mas era só impressão. Nada aconteceu.
Ele então colocou o clip por cima da língua e fingiu engolir. Chegou até a campainha da boca e o regurgitou. Havia arranhado. Havia metalizado seu interior. O menino rodou o clip e fechou as janelas. A pressão na coluna, o coração empurrado e um estranho aperto na garganta chamavam-se vida. E ela continuaria assim, como ele e as telhas quebradas do vizinho.
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